Mostrando postagens com marcador Idolatria. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Idolatria. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020

Faça certo pelos motivos certos

Resultado de imagem para crossCerta vez, após o término dos meus dias de férias, eu pensava em um tema para o primeiro texto a ser escrito naquele ano e na lida diária com meus filhos, mais uma vez, o assunto das motivações do coração veio à tona. Calvino foi preciso quando afirmou que o coração do homem é uma perpétua fábrica de ídolos!

Acordamos e logo pela manhã havia algumas tarefas a serem feitas. Minha filha deveria arrumar a cama e meu filho ajudaria a mãe colocando os calçados que foram limpos na sapateira. Enquanto isso, conversando com minha esposa, mencionei que os deixaria assistir a um filme que eles estavam pedindo há dias. Minha esposa pediu que eu ligasse a TV somente depois que o mais novo terminasse a sua tarefa. A essa altura minha mais velha já estava no sofá, lendo um gibi.

Quando eu disse que eles iriam assistir o filme após o término da tarefa, mais que rapidamente minha menina disse: “Vou ajudar meu irmão!”, e levantou-se correndo para fazê-lo. Eis que surge, então, uma oportunidade de fazer o que ordenou o Senhor em Deuteronômio, inculcar aos filhos a Palavra, falando enquanto se está “assentado em tua casa, e andando pelo caminho, e ao deitar-te, e ao levantar-te” (Dt 6.7).

Comecei falando à minha filha que ajudar o irmão era uma coisa muito boa. É importante demonstrar que problema não é necessariamente o que é feito, mas a razão para fazer o que se faz. Pais precisam ter o devido cuidado a fim de não desanimarem os filhos, somente mostrando que tudo o que fazem está errado, mas após falar que a ação foi boa, era hora de instruir o coração.

Perguntei o porquê de ela ter ido ajudar o irmão tão entusiasmada e rapidamente. A resposta não poderia ser outra: “porque quero assistir logo o filme!”. Tornei a perguntar se esta seria a razão certa para ajudar o irmão e ela logo fez uma carinha triste, entendendo o problema. Eu disse, então, que era preciso fazer coisas certas pela razão certa.

Meu objetivo com isso é um só. Ensinar a minha filha que é preciso amar a Deus e ao próximo, quando nos dispomos a fazer algo por outros. A glória de Deus, primeiramente, e o bem do outro, precisam ser os motivadores para as atitudes. Naquele momento, apesar de fazer algo bom e certo, ela agia motivada apenas pelo seu desejo de assistir ao filme. Possivelmente, se não houvesse um filme na história, ela continuaria assentada no sofá, lendo o seu gibi.

É claro que tudo isso também precisa ser dito a respeito de nós, pais. Ao ver as crianças fazendo o que é certo, ainda que somente externamente, é tentador querer usar os desejos do coração dos filhos para controlá-los e adestrá-los (sim, a palavra é essa). Dizer aos filhos que receberão um presente caso se comportem bem, não poucas vezes, “funciona”. O problema é que este caminho, geralmente mais rápido que o de gastar tempo tratando das motivações corretas, no máximo, fará com que os filhos se tornem fariseus ensimesmados, que enxergam o mundo girando ao seu redor, cuja única chance de deixarem a si mesmos de lado para ajudar a outros será quando for para conseguir o que seus corações tanto almejam.

Sim, filhos e pais agem de acordo com o que está em seus corações. É por isso que amar a Cristo precisa ser sempre o alvo maior. Quanto mais o amamos, mais temos condições de negarmos a nós mesmos (Mt 16.24).

Diante disso, os pais que querem cumprir o que ordena o Senhor em Deuteronômio, inculcando a Palavra aos filhos em todo o tempo, precisam ter em mente o que afirma o início do versículo 6.6: “Estas palavras que, hoje, te ordeno estarão no teu coração”. O ensino da Palavra aos filhos pressupõe que ela esteja já guardada no coração dos pais, de outra forma, o ensino será tal qual o dos escribas e fariseus que falavam e não faziam.

Mais importante ainda é lembrar a maior razão que temos a fim de fazer tudo para a glória de Deus: Cristo Jesus, nosso Senhor. É por causa de tudo o que ele fez de forma perfeita, cumprindo plenamente todos os mandamentos, assumindo sobre si os pecados do seu povo, sofrendo a punição que viria sobre nós, que não estamos mais debaixo da maldição e podemos viver para a glória de Deus. Fomos salvos pela graça, mediante a fé em Cristo, a fim de viver para Deus e não para nós mesmos. Paulo afirmou que “somos feitura dele, criados em Cristo Jesus para boas obras, as quais Deus de antemão preparou para que andássemos nelas” (Ef 2.10). Essa deve ser nossa lembrança e assim devemos viver.

Cuide portanto, não somente daquilo que você faz, mas esteja bem atento às razões do seu coração. É importante, diante de tudo o que você vai fazer, considerar: Qual a razão para eu fazer isso? O que estou buscando? A quem estou querendo agradar? Perguntas como essas trazem à tona aquilo que está movendo a nossa vida.

Tenha como regra para si o que foi respondido por Jesus ao ser questionado sobre qual seria o grande mandamento da lei: “Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu pensamento. Este é o primeiro e grande mandamento. E o segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Desses dois mandamentos dependem toda a lei e os profetas” (Mt 22.37-40. Assim. Fazendo o que fizer, você fará certo pelos motivos certos.

Para isso você foi salvo por Jesus!

Milton C. J. Junior

terça-feira, 10 de setembro de 2019

Motivos, emoções e idolatria

marionete

Certa vez me perguntaram se no céu teríamos lembrança daquilo que ocorreu em nossa vida e das pessoas que conhecemos. Sei que esse é um assunto controverso e que há posições bem diferentes, mas no meu entender não sofreremos de amnésia, lembraremos de tudo, sim. Ouvi como resposta que se for desse jeito ficaremos tristes no céu. A razão é que, lembrando de tudo, vamos saber caso algum parente nosso não esteja lá e certamente isso nos entristecerá.

Enquanto escrevo estas primeiras linhas, vem à minha mente uma conversa que tive com uma amiga, bem no começo da minha caminhada cristã. Na ocasião discutíamos a afirmação de um pregador que havia dito que homens de cabelo comprido não iriam para céu. Como ela pertencia a uma igreja que confundia “usos e costumes” com a própria Escritura, a conversa acabou girando em torno dos tais. No fim perguntei se eu, não observando os mesmos “costumes” que ela, mas crendo em Cristo, poderia ir para o céu e ouvi: “até pode ir, mas vai ficar com inveja porque meu galardão será maior”. Como novo convertido, limitei-me a responder que não iria para o mesmo céu que ela, pois para o que iria não haveria pecado.

Minha intenção neste texto não é tentar provar se no céu haverá lembrança de tudo (apesar de eu crer assim), tampouco discutir se homens podem ou não ter as madeixas crescidas, mas analisar como nossos sentimentos e motivações são afetados pelo pecado, por isso as duas histórias foram citadas.

A Escritura ensina que o homem foi criado para que Deus seja glorificado (Rm 11.36; 1Co 10.31) e nos instrui também de que o verdadeiro prazer, alegria, satisfação, esperança, segurança, etc. somente podem ser encontrados nele (Sl 73.25,26; Sl 1.2; Sl 16.11; Sl 18.2). Tanto é assim que no primeiro mandamento o Senhor ordena: “Não terás outros deuses diante de mim” (Êx 20.3), ou seja, nossa motivação deveria ser sempre a glória de Deus e o relacionamento com ele deveria satisfazer todos os nossos anseios.

Com a queda, o homem passou a buscar prazer em coisas e pessoas, aprovação dos homens e sua motivação se tornou egoísta. O problema é que sempre que dependemos de qualquer coisa ou pessoa para ser felizes, seguros ou plenamente realizados, estamos quebrando o primeiro mandamento e somos culpados pelo pecado da idolatria. Podemos voltar então aos exemplos citados no início para ver de forma prática o quanto o pecado aflige e distorce a vontade de Deus para a vida do homem.

No primeiro caso a alegria no céu está vinculada ao fato de ter os entes queridos também por lá, a ponto de achar que se lembrarmos de algum que não foi salvo (caso seja verdadeira a afirmação de que no céu teremos lembrança de tudo) ficaremos tristes, o que demonstra que a presença bendita do Senhor e a comunhão plena com ele ficariam ofuscadas de tal modo que não conseguiríamos estar alegres.

No segundo exemplo verificamos que a motivação para cumprir determinadas práticas não era glorificar ao Senhor, mas ganhar mais galardão e, por que não, o medo de ficar triste e invejar aqueles que ganharão mais.

É claro que não são somente as pessoas das histórias citadas que sofrem com os efeitos do pecado. Cada um de nós, membros da raça humana, caídos em Adão, padece os mesmos problemas.

Isso explica o porquê de muitas vezes pecarmos simplesmente para ser aceitos por homens, para ser bem vistos. Explica também o fato de muitas vezes sermos controlados pelo que as pessoas vão pensar, numa motivação totalmente egoísta. Você se lembra de Pedro afastando-se dos gentios com quem comia, pois temia o que “os da circuncisão” iam achar (Gl 2.11ss)?

Diante do que foi exposto devemos dar ouvidos à exortação do apóstolo João: “Filinhos, guardai-vos dos ídolos”, e verificar que ela vem logo após a afirmação de que estamos no verdadeiro Deus: Também sabemos que o Filho de Deus é vindo e nos tem dado entendimento para reconhecermos o verdadeiro; e estamos no verdadeiro, em seu Filho, Jesus Cristo. Este é o verdadeiro Deus e a vida eterna” (1Jo 5.20-21).

Que creiamos nisso de todo o coração e aprendamos a estar plenamente satisfeitos em Deus, motivados a fazer todas as coisas somente para a sua glória.

Milton C. J. Junior

terça-feira, 13 de agosto de 2019

Quem manipula quem? O problema da abordagem comportamental

condicionamento

Toda cidade tem um doido, desses que vivem pela rua e que são conhecidos por todos, virando até lenda em alguns casos. Pois um desses era constantemente motivo de chacota. A razão? Todos os dias ele passava na frente de um bar onde um grupo de amigos parava para beber. E era sempre a mesma história, cada dia um deles oferecia ao doido uma nota de 10 reais e uma moeda de 1 real para que escolhesse. E não é que o doido sempre escolhia a moeda, para a satisfação dos envolvidos na história que explodiam em risadas? Foram mais de 2 meses assim até que um dia, um dos amigos disse ao doido: “você é muito burro! A nota de 10 reais vale mais que a moeda de 1” – e emendou: você não sabe disso? Escolha a nota!!!”. O doido com muita tranquilidade respondeu que não e o que questionava perguntou o por que, ouvindo logo a resposta: “é que se eu escolher a nota acaba a brincadeira”.

A piada é engraçada (pelo menos eu acho) e nos remete ao título do texto: quem manipula quem? Em um artigo anterior abordei o problema de focar na mudança de comportamento e demonstrei que isso é ineficaz se queremos ajudar nossos irmãos em seu processo de santificação e conformidade à imagem do Redentor. O maior problema do foco na mudança de comportamento é que acaba por formar “fariseus”, mas há outro problema que será abordado aqui e que eu chamo de “círculo de manipulação”.

Um caso comum

Pense na história de Fernando e Joana. Eles são casados e ambos são membros de uma igreja protestante há alguns anos. São engajados no trabalho da sua comunidade e muito responsáveis em suas atribuições. Porém, em seu lar, os conflitos só aumentavam. Joana cuidava do trabalho de casa, da criação dos filhos e desejava ter a ajuda de Fernando em alguns afazeres domésticos.

Entretanto, o desejo de ser ajudada, que não é mal em si mesmo, acabou por se tornar uma exigência. Ela começou a entender que precisava daquilo para ser feliz e como seu marido não lhe dava a ajuda que queria ela o julgava (“ele é um péssimo marido”) e o punia. A forma que encontrou para punir o marido era recusar-se a ter relacionamento sexual com ele.

O que temos aqui é um bom desejo que se tornou um péssimo senhor. A partir do momento em que Joana pune o seu marido porque este não fez o que ela achava que ele deveria fazer, demonstra que está sendo controlada pelo seu desejo e em termos bíblicos isso se chama idolatria. É fácil perceber quando um bom desejo se torna um ídolo, basta verificar se pecamos para conseguir o que queremos ou se pecamos porque não conseguimos o que queremos, mas, apesar da facilidade, aqueles que estão obedecendo ao “mau senhor” geralmente não de dão conta. Aqui entra em cena a figura do conselheiro bíblico que deve levar o aconselhado a enxergar essa situação.

O círculo de manipulação

Ao privar Fernando do relacionamento sexual, além de punir o marido, Joana conseguia também manipulá-lo para fazer o que ela queria, ou seja, ajudar nos afazeres domésticos.

Fernando, por sua vez, satisfazia o desejo da sua esposa ajudando-a com a louça, porém o fazia porque estava interessado mesmo era em sua satisfação sexual, revelando também estar sendo controlado pelo seu desejo.

Ele descobriu também como manipular sua esposa. Quando queria sexo, se tornava o melhor marido do mundo, pois sabia que à noite seria satisfeito. Ela por sua vez, achava que o manipulava punindo-o com a falta de sexo. A pergunta do título deve ser lembrada aqui: Quem está manipulando quem?

Na verdade, o círculo de manipulação acaba por escravizar e transformar ambos, marido e mulher, em simples marionetes manipuladas pelo ídolo. É o mau desejo que faz com que eles “funcionem” desta forma e mostra que eles estão servindo a um mau senhor.

Esse círculo de manipulação pode causar a falsa impressão de que as coisas vão bem, afinal de contas, o marido agora ajuda nos afazeres diários e a esposa não briga mais, nem se nega a relacionar-se com o esposo.

Bastará, porém, que o marido perca o interesse pelo sexo, que é quem está governando sua vida, ou que a esposa entenda que “merece” um marido que faça muito mais do que simplesmente ajudar nos afazeres domésticos para que os conflitos retornem. A solução equivocada será novamente punição da esposa para manipulação até que o marido entenda como virar o jogo para conseguir o que quer da esposa. É um círculo sem fim.

Quebrando o círculo, pelo poder de Deus

Como vimos, a abordagem comportamental gera um círculo vicioso onde os envolvidos se enganam achando que estão controlando o comportamento alheio, quando na verdade estão também escravizados por seus próprios desejos que tornaram-se “maus senhores”.

Para que Fernando e Joana resolvam de forma efetiva os conflitos é necessário lidar com eles de forma bíblica.

Tiago afirma em sua epístola que as guerras e contendas acontecem por causa dos prazeres que fazem guerra em nossa carne (Tg 4.1). Ele afirma ainda que o homem não recebe o que pede em razão de o pedido ser para esbanjar nos prazeres da carne (4.3). Após isso acusa, então, os crentes de serem infiéis (adúlteros na ARC). Isso quer dizer que até a oração, quando direcionada pelos “desejos da carne”, constitui-se um ato de infidelidade. Tiago explica isso de forma clara ao afirmar que a amizade do mundo constitui-se uma inimizade contra Deus (4.4). Podemos resumir isso dizendo que os nossos conflitos com o próximo tem como causa o nosso conflito (infidelidade) com Deus, quando em vez de nos submetermos a ele somos escravizados por nossos desejos.

Tiago não estava falando nenhuma novidade. Seu irmão, o nosso Senhor Jesus Cristo, já havia dito que onde está o nosso tesouro, ali estará também o nosso coração (Mt 6.21). Isso quer dizer que aquilo que entendermos ser o mais importante será o que controla a nossa vida. Isso fica claro quando observamos as palavras anteriores onde ele ordena a não ajuntar tesouros na terra, mas a procurar ajuntar tesouros no céu.

Quando estamos dominados por nossos desejos estamos “fabricando” um falso deus. Essa é a razão de Paulo afirmar aos coríntios que apesar de todas as coisas serem lícitas, ele não se deixaria dominar por nenhuma delas (1Co 6.12). A razão correta a nos motivar deve ser sempre a glória de Deus, como também ensina Paulo: “Portanto, quer comais, quer bebais ou façais outra coisa qualquer, fazei tudo para a glória de Deus” (1Co 10.31).

Diante disso, se o casal quiser quebrar o “círculo de manipulação”, deverá tomar algumas atitudes:

1. Reconhecer a idolatria do coração

Fernando e Joana devem primeiramente entender que estão sendo “movidos” e “direcionados” não pelo Senhor, mas por seus próprios desejos, que constituem os seus “tesouros” e isso é idolatria. No caso de Joana o ídolo era o “desejo de ser ajudada” e no de Fernando o “desejo pelo sexo”.

Esses desejos que não são maus em si, como já foi afirmado, tornaram-se falsos deuses. Eles fizeram falsas promessas de alegria: “Se você tiver um marido mais prestativo será mais feliz”; “se você tiver realização sexual será mais feliz” e para alcançar essa alegria Fernando e Joana estavam pecando um contra o outro, tentando “controlar” um ao outro pela manipulação.

Sem o reconhecimento de que o problema está no coração que está adorando um falso deus, qualquer mudança será mero paliativo.

2. Confessar o pecado e rejeitar os falsos deuses

Não basta, porém, reconhecer que estão sendo idólatras. Verificado o fato de que estão sendo controlados por um falso deus, Fernando e Joana devem confessar o pecado de buscar satisfação e alegria fora do Senhor. Devem também abandonar os ídolos, dando ouvidos à voz de Deus que ordena: “Não terás outros deuses diante de mim” (Ex 20.3). A idolatria é uma grande ofensa a Deus, mas em Cristo Jesus há redenção. João afirma que “se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda a injustiça” (1Jo 1.9).

Além de confessar o pecado contra o Senhor eles devem também confessar o pecado de tentar controlar um ao outro. Após a confissão do pecado contra o próximo, há ainda mais a fazer.

3. Submeter-se às ordenanças do verdadeiro Senhor

A evidência do arrependimento será uma nova disposição no relacionamento com Deus e com o próximo. A Escritura ordena não somente a parar de pecar, mas também a assumir uma nova postura. Aos colossenses Paulo explicou isso usando a metáfora do despir e vestir. Ele ordenou aqueles irmãos a terem uma nova postura porque haviam se “despido do velho homem” e se “revestido do novo homem” segundo a imagem daquele que o criou (Cl 3.9-10).

Fernando e Joana deveriam, então, obedecer a vontade de Deus em relação ao casamento. O matrimônio, conforme estabelecido na Escritura, é uma instituição que visa a satisfação do outro. Não poderia ser diferente, pois o apóstolo Paulo afirma categoricamente que o amor não busca os seus próprios interesses (1Co 13.5).

Desta forma, as ordenanças no casamento são sempre em relação ao outro. Paulo ordena ao marido que ame sua esposa e à esposa que se submeta ao marido, mas não diz para um cobrar do outro (apesar de gostarmos de cobrar do outro, mesmo que não façamos o que nos é ordenado). Se cada cônjuge se esforça para cumprir aquilo que lhe é exigido há um casamento harmonioso e que glorifica a Deus.

No caso dos pecados específicos, tratados nesse artigo, Joana deveria se relacionar sexualmente com o marido ou abster-se disso somente de acordo com aquilo que a Palavra ensina e não para manipulá-lo a fim de fazer dele um marido mais prestativo.

Quando escreveu aos Coríntios Paulo deixou claro que o casal não deve privar um ao outro do relacionamento sexual. A razão apresentada é que isso é “devido” ao outro e que o corpo do marido pertence à mulher, da mesma forma que o dela pertence ao marido. A única razão para privar o cônjuge do relacionamento sexual seria a dedicação à oração, mas somente com mútuo consentimento e com a orientação de novamente se ajuntarem para que Satanás não tente por causa da incontinência (1Co 7.1-7).

Fernando, por sua vez, também deveria colaborar com sua esposa nos afazeres domésticos (perdoem-me machões), mas não em troca de sexo. A motivação correta deve ser o entendimento de que, por ser herdeiro com ela da mesma graça de vida, precisa viver a vida comum do lar, com discernimento e, tendo consideração para com a mulher como parte mais frágil, trata-la com dignidade (1Pe 3.7).

4. Entender que só há satisfação plena e verdadeira no Senhor

Por último, ambos, Fernando e Joana, devem entender que a satisfação e alegria verdadeiras só podem ser encontradas no Senhor. Não dependemos de pessoas ou circunstâncias, pois temos tudo o que necessitamos em Cristo Jesus. Paulo compreendeu muito bem isso e pôde afirmar: “aprendi a viver contente em toda e qualquer situação. Tanto sei estar humilhado como também honrado; de tudo e em todas as circunstâncias, já tenho experiência, tanto de fartura como de fome; assim de abundância como de escassez; tudo posso naquele que me fortalece” (Fl 4.11-13).

Creio não ser uma inferência indevida dizer também “aprendi a viver contente em toda e qualquer situação... com um marido que me ajuda ou com um marido que não me ajuda; tendo ou não tendo satisfação sexual”.

Entender isso será de suma importância porque ainda que um dos cônjuges não mude a sua postura, o que não é incomum, não haverá motivos para desespero, crises, brigas, pois a satisfação e a alegria estarão sendo buscadas na fonte correta, no Redentor Jesus Cristo. “Nele o nosso coração se alegra, pois confiamos no seu santo nome” (Sl 33.21).

Conclusão

Quando se entende que a alegria e satisfação dependem daquilo que se pode encontrar em pessoas, seja nelas mesmas ou naquilo que podem dar, sempre haverá frustrações e conflitos, porque pessoas sempre frustrarão as nossas perspectivas, principalmente porque, na maioria das vezes, esperamos mais do que elas podem dar.

Ao invés de manipular pessoas a fim de conseguir o que quer, peça ao Senhor que sonde o seu coração por meio da Palavra, arrependa-se por estar confiando nas falsas promessas dos ídolos e volte o seu coração para o Redentor.

Entendendo que a plenitude de alegria e satisfação só podem ser encontradas no Senhor, teremos motivos de sobra para nos regozijar e exultar nele, não dependeremos de circunstâncias e, ainda que venhamos a sofrer por fazer sua vontade, podemos estar certos de que somos bem-aventurados (1Pe 3.14).

Milton C. J. Junior



quinta-feira, 8 de agosto de 2019

Mudança de comportamento - uma perspectiva bíblica


1. O problema aparente
Thiago é um adolescente cristão, filho de um pastor evangélico. Foi criado segundo os princípios bíblicos e teve uma excelente formação cristã. Sempre foi atuante na igreja, e em seu lar estava acostumado com a rotina dos cultos domésticos. Costumava ser frequentemente citado por aqueles que o conheciam como um bom modelo a ser imitado, contudo, nos últimos tempos, depois de mudar de escola e fazer uma nova turma de amigos, Thiago não parecia mais o mesmo. Aquele que sempre foi um moço bem-educado agora vivia xingando. Os palavrões saiam de seus lábios com tanta naturalidade e frequência que era impossível não ficar incomodado e, tudo isso, já estava começando a “pegar mal” para o seu pai, afinal, filho de pastor não xinga.

Jair é diácono da igreja. Sempre foi muito responsável com o seu trabalho e, geralmente, era bastante polido no seu modo de falar. Porém, algumas pessoas da igreja já tiveram o desprazer de vê-lo irritado e, quando isso acontecia, aquela linguagem polida dava lugar aos mais terríveis palavrões. Em casa, sua esposa e filhos eram também, muitas vezes, insultados com xingamentos, o que levava a brigas ainda maiores.

O pastor Enoque, que já vinha se sentindo envergonhado por causa do linguajar do seu filho Thiago, começou a receber reclamações por parte dos membros ofendidos pelo diácono Jair. Além disso, a esposa do diácono também procurou o pastor para queixar-se do modo como o marido muitas vezes a tratava e de como estavam brigando em decorrência disso, estavam a ponto de separar-se.

Aparentemente o problema era o mesmo, um adolescente e um diácono que pecavam falando palavrões, e foi com esse entendimento que o pastor Enoque tentou tratar os dois casos.

2. Deus não é um mero extintor de incêndio
Primeiro o pastor chamou o filho e falou que por causa do seu linguajar, ele, como pastor da igreja, estava sendo envergonhado e sendo motivo de chacotas: “o pastor não sabe cuidar nem do filho...”. Abriu a Bíblia e, citando os textos de Efésios 4.29 e Tito 2.8, afirmou que dizer palavras torpes é pecado e que Deus puniria o seu pecado. Não haveria como fugir do juízo de Deus porque o homem colhe o que planta, esbravejou citando Gálatas 6.7. Se não quisesse experimentar o peso da mão do Senhor, Thiago deveria imediatamente parar de falar palavrões.

Com o “sermão” pronto, ficou fácil. O pastor convocou o diácono Jair, repetiu as mesmas palavras, incluiu alguns versículos que falam sobre o cuidado do marido em relação à esposa e afirmou que, caso acontecesse o divórcio, a culpa seria toda do diácono. Se não quisesse sentir o peso da mão do Senhor e perder a esposa, Jair deveria parar de xingar as pessoas.

Isso me faz lembrar de um programa a que assisti com o “Dr. Pet”, adestrador de animais. Nesse programa ele foi chamado para resolver um problema com alguns cachorros que viviam brigando. Eram uns cinco ou seis cachorros de porte grande que, ao serem soltos pelo dono, começavam a se morder, mesmo com o dono gritando para que parassem. A solução do Dr. Pet foi fantástica. Instruiu o dono dos animais de que, munido de um extintor de incêndios, se aproximasse dos cachorros no momento da briga. Ele teria de dar a ordem: pare!, e em seguida acionar o extintor em direção aos cães que dispersariam com medo daquele jato de pó. Isso deveria se repetir algumas vezes, até que os cães cessassem a briga simplesmente ouvindo o comando para parar. E foi o que, de fato, aconteceu. Ao ouvir a ordem “pare!”, os cães associavam ao extintor e, por medo de levar mais um jato, obedeciam.

Apesar de os personagens citados nos exemplos acima serem fictícios, as situações descritas não são diferentes daquelas que podemos perceber todos os dias no cotidiano de muitos cristãos. Pior ainda é saber que a forma como têm sido tratadas essas questões assemelha-se mais ao método do Dr. Pet para adestrar os cães que com a perspectiva bíblica para a mudança de comportamento. Muitos crentes têm evitado o pecado somente por medo da consequência e não por causa do entendimento de que devem viver para a glória de Deus (1Co 10.31; Rm 11.36). Para eles, a ideia de Deus é simplesmente a de um extintor de incêndio pronto para ser acionado. O pecado é então evitado por causa da consequência que se sofre e não por causa da ofensa ao Senhor.

O problema na abordagem descrita é que ela se limita a “tratar” os sintomas sem descobrir a causa. É como alguém que constantemente sente dor de cabeça e simplesmente toma um analgésico. Várias são as causas que podem levar alguém a sofrer com isso, mas, somente como exemplo, pense na hipertensão. Alguém que tenha “pressão alta” pode frequentemente sentir dor de cabeça e o analgésico será um simples paliativo, servindo para mascarar o verdadeiro problema, pois, se não há dores não há o que se verificar e o problema continuará lá até o momento de se manifestar de forma mais grave, como um AVC.

Conquanto os princípios bíblicos citados pelo pastor Enoque sejam verdadeiros, para que a mudança de comportamento honre ao Senhor ela deve ir além de regras cumpridas por medo da punição. Não é simplesmente parar de xingar, mas fazer isso por causa de uma motivação correta. Como então proceder de forma bíblica a fim de que a mudança seja duradoura e honre ao Senhor?

3. Um caminho bíblico: tratando o problema na raiz
A perspectiva bíblica quanto à mudança de comportamento está ligada à santificação. Como afirma Booth: “A Santificação é um processo contínuo pelo qual Deus, por sua misericórdia, muda os hábitos e o comportamento do crente, levando-o a praticar obras piedosas.”[1] Sabendo que “a Palavra de Deus é viva e eficaz, e mais cortante do que qualquer espada de dois gumes, e penetra até ao ponto de dividir alma e espírito, juntas e medulas, e é apta par discernir os pensamentos e propósitos do coração” (Hb 4.12), precisamos recorrer a ela para entender não só como agimos, mas por que agimos como agimos.

É muito importante entender que, na dinâmica da igreja, somos responsáveis por “admoestar uns aos outros” (cf. Rm 15.14). Como indica o excelente livro do Dr. Paul Tripp, somos “Instrumentos nas mãos do Redentor – pessoas que precisam ser transformadas ajudando pessoas que precisam de transformação”[2]. Para isso precisamos entender três princípios:

1. O homem é governado pelo coração – Ao advertir os discípulos que não procurassem ajuntar tesouros na terra, mas no céu, Jesus afirmou: “porque, onde está o teu tesouro, aí estará também o teu coração” (Mt 6.19-21). O ensino aqui é evidente. Buscamos aquilo ao qual damos maior valor em nosso coração. Se os discípulos tivessem como “tesouro” os bens, era isso que governaria seus corações e motivaria as suas ações, mas se o “tesouro” fosse o Reino de Deus e sua justiça, agiriam em conformidade com a justiça do Senhor. Foi também o Senhor Jesus quem afirmou que do coração procedem os maus desígnios, homicídios, adultérios, prostituição, falsos testemunhos, blasfêmias (Mt 15.19) e que a boca fala do que está cheio o coração (Mt 12.34).

Por causa de tudo isso é que o livro de Provérbios orienta: “Sobre tudo o que se deve guardar, guarda o coração, porque dele procedem as fontes da vida” (Pv 4.23).

Se o pastor Enoque tivesse esse entendimento conseguiria verificar que o problema do seu filho e do diácono não era simplesmente o linguajar torpe, mas aquilo que estava governando seus corações em lugar do Senhor. No caso do filho o desejo de ser aceito no novo grupo de amigos, no caso do diácono, o desejo de ser ouvido e respeitado.

Mas como o pastor Enoque chegaria a essa conclusão? Observando o próximo princípio.

2. Pessoas e circunstâncias revelam o nosso coração – De um modo geral a tendência do homem, ao pecar, é colocar a culpa em outras pessoas ou nas circunstâncias. Porém, diante da verdade bíblica de que somos dirigidos pelo nosso coração, devemos entender que pessoas e circunstâncias simplesmente revelam o que está em nosso coração, elas servem como a antiga pomada de basilicão, usada em pessoas com furúnculos. Ao ser aplicada a pomada “trazia para fora” o carnegão[3] e, é lógico, isso só acontecia porque ele já estava lá. A pomada não produzia o carnegão, simplesmente o revelava.

Ao analisar os casos sob essa ótica, o pastor veria que a razão de o seu filho estar xingando constantemente era o medo de ser rejeitado pelo novo grupo de amigos. Ser aceito era tão “importante e necessário” que, nessa ânsia, ele deixava de lado todos os princípios bíblicos aprendidos outrora demonstrando, ao contrário da atitude dos discípulos em Atos 5.29, que importava obedecer aos homens que a Deus.

No caso do diácono, o pastor Enoque perceberia que o xingamento era a forma de “punir” aqueles que não o respeitavam como ele achava que merecia. Como diácono da igreja, entendia que não podia ser contestado e como chefe do lar, nunca questionado. Seu desejo por respeito passou a ser uma “necessidade” que ele agora exigia e qualquer um que o privasse daquilo que ele tanto queria logo era julgado e punido, no caso, com xingamentos.

Ao observar o princípio de que as pessoas e circunstâncias revelam o coração, o pastor Enoque teria condições de avaliar também a postura da esposa do diácono. Ao ameaçar deixá-lo, o que ela tentava fazer era manipulá-lo para que ele a tratasse melhor. Ela também, por causa do seu desejo, tentava mudar o comportamento do marido infligindo medo.

Mais ainda, o pastor poderia avaliar seu próprio coração e descobrir que sua motivação para corrigir o filho não estava sendo a glória de Deus, mas a vergonha a que ele estava sendo submetido por causa do seu mau comportamento.

Pessoas e circunstâncias são usadas por Deus para revelar o que controla o nosso coração e, com os desejos do coração expostos, podemos, com o auxílio do Espírito do Senhor, abandonar a nossa vontade e nos submeter à vontade do Senhor. Isso nos leva ao terceiro princípio.

3. Os ídolos do coração devem ser abandonados – No primeiro mandamento o Senhor ordena: “Não terás outros deuses diante de mim” (Êx 20.3). Costumamos pensar em idolatria somente no que diz respeito a imagens de escultura, mas a Bíblia nos adverte contra os “ídolos do coração” (Ez 14.1-9). Incorremos em idolatria todas as vezes que buscamos alegria, prazer, satisfação e realização fora do Senhor. Se pecamos para conseguir o que desejamos, ou pecamos quando não conseguimos o que desejamos, é porque esse desejo já se tornou um ídolo, um falso deus que faz promessas vãs acerca daquilo que achamos que nos trará satisfação.

O caminho bíblico é o de identificar a idolatria, arrepender-se por confiar em falsos deuses e voltar-se de todo o coração ao Senhor (Ez 14.6) buscando de coração fazer a sua vontade.

O adolescente Thiago deve rejeitar o ídolo da “aprovação dos homens” e entender que a alegria não é encontrada num grupo de amigos, mas no Senhor e, por isso, é a ele que precisamos agradar. O diácono Jair tem de abandonar o ídolo do “respeito” e entender que o pecado de outros ao não respeitá-lo não autoriza o seu pecado ao revidar as afrontas. Ao invés de revidar ele deve entregar tudo àquele que julga retamente (1Pe 2.23). De igual modo a sua esposa deveria abandonar o ídolo do “controle” e, ao invés de tentar mudar o marido manipulando-o pelo medo, deveria ganhá-lo sem palavra alguma, por meio de um honesto comportamento (1Pe 3.1-6). Por último, o Pastor Enoque deveria entender que a motivação para corrigir o filho deveria ser exclusivamente a glória de Deus, abandonando o ídolo da “reputação”.

Conclusão
Entender os motivos do coração é essencial para uma mudança de comportamento que seja duradoura. Qualquer mudança externa, que não leve em conta a raiz do problema, será mero paliativo e servirá unicamente para produzir fariseus que não se preocupam com a glória do Senhor, mas com seus próprios desejos.

É bom salientar que os desejos não são maus em si mesmos. Pensando nos casos citados, não há mal em querer ser aprovado, ser respeitado ou ter uma boa reputação. O problema é quando essas coisas tomam uma importância tão grande que passam a governar o coração e nos levam a pecar.

Que o governo de nossa vida seja exclusivamente de Cristo Jesus, aquele que já nos redimiu e nos santificará para ele mesmo, até o dia final. Vivamos para sua glória e louvor.

Milton C. J. Junior     


[1] A. Booth. Somente pela graça. São Paulo, PES, 1986, p. 44-45.
[2] A obra do Dr. Tripp foi publicada no Brasil pela Ed. NUTRA e é um excelente livro-texto para aqueles que se interessam por aconselhamento bíblico.
[3] Regionalismo para “carnicão”, a parte central dos furúnculos e tumores (Dicionário eletrônico Houaiss).

terça-feira, 16 de julho de 2019

Um leão está no caminho – a tentativa de racionalizar o pecado

Quando a carta de Angélica[1] pedindo exoneração da função que exercia na igreja chegou ao Conselho, as razões apresentadas pareciam plausíveis. Estava ficando difícil conciliar o emprego, o cuidado com a casa e os trabalhos finais da pós-graduação com o seu trabalho na igreja. Diante de tantos afazeres, o trabalho da igreja ficaria sempre em segundo plano e para fazer mal feito era melhor deixar para alguém que pudesse desempenhar melhor a função.

Diante daquilo que afirma o livro do profeta Jeremias, “maldito aquele que fizer a obra do Senhor relaxadamente” (Jr 48.10a), a atitude de deixar um cargo da igreja por entender que não será feito um bom trabalho e, por isso, Deus não será honrado, deveria ser vista como louvável. Porém, a história ainda não terminou.

Na visita pastoral a fim de acompanhar Angélica, que além de ter entregado o cargo também não estava frequentando a igreja, algumas constatações foram feitas.

Ela foi arguida sobre sua vida devocional e respondeu que não tinha tempo de ler as Escrituras. De fato, eram muitas as leituras requeridas no curso, mas nada que justificasse não separar ao menos 20 minutos diários para uma breve leitura bíblica. Era fácil perceber que a desculpa era fraca. Entretanto, um problema ainda mais grave viria à tona.

Como Angélica havia entregado o seu cargo e não estava frequentando a igreja, a conversa acabou também tomando essa direção e em determinado momento ela expressou: “Se eu continuasse no cargo iria fazer mal feito e as pessoas iriam me criticar. Eu não gosto de ser criticada!”.

Você consegue perceber o que está, de fato, em jogo aqui? Na explicação dada na carta enviada ao Conselho, a motivação parecia piedosa, porém, diante dessa última afirmação, percebe-se que aquela era apenas uma tentativa de justificar a verdadeira razão para o abandono da função: orgulho!

“Diz o preguiçoso: Um leão está lá fora; serei morto no meio das ruas”

(Pv 22.13)

O provérbio acima faz exatamente essa constatação. Para não admitir o seu pecado, a sua falta de vontade de fazer o que deve, o preguiçoso trata de arranjar uma desculpa. Seu problema não é a preguiça, seu problema é que se ele se propuser a fazer o que deve estará diante de um perigo iminente. É possível até ouvir em alto e bom som: “Vocês não estão vendo que tem um leão lá fora e que estou correndo perigo?”.

Infelizmente, essa atitude não é exclusiva de Angélica ou do preguiçoso do provérbio. De modo geral, o homem vive arranjando razões que “justifiquem” ou escondam o seu pecado. Convenhamos, é bem mais fácil buscar a causa em coisas externas ou em algo que foge ao nosso controle do que admitir a nossa culpa e irresponsabilidade.

Por isso, é tão comum se ouvir por aí: “Eu não sou guloso, meu problema é de metabolismo”; “É lógico que confio em Deus, a causa da minha ansiedade é química, preciso é de remédios”; “Eu não sou iracundo, tratei mal fulano porque ele não entende meus problemas”; “Não, eu não sou lascivo, mas sabe como é, né? Sou casado e minha esposa não supre as minhas necessidades”, etc., e, assim, são os leões e não a preguiça o alvo a ser tratado. Se eles não existissem, as atitudes seriam outras.

A questão é tão sutil que, ao criar o seu leão imaginário, o preguiçoso se dá por satisfeito e se rende à sua condição. Ninguém precisa acreditar na sua alegação, basta que ele saiba que o problema não é ele.

Confessando o pecado ao Leão de Judá

A Bíblia fala também de outro Leão, este, majestoso. Em Apocalipse João chama o Senhor Jesus de o Leão da Tribo de Judá. Ele é o Deus Todo-Poderoso, aquele que venceu a morte para nos dar uma nova vida. O Leão de Judá é aquele que tem poder para perdoar os pecados e tratar o nosso coração. Em vez de racionalizar os pecados, podemos e devemos confessá-los ao Senhor e receber dele o perdão (1Jo 1.9).

Enquanto o verdadeiro problema não for tratado, nunca haverá alegria e satisfação.

Voltemos então à Angélica. Ela ouviu e entendeu que estava arranjando desculpas e que o seu orgulho era o verdadeiro problema a ser enfrentado. O grande problema é que não basta entender o problema. Como já foi afirmado, é preciso confessar o pecado e, ainda mais, buscar forças no Senhor a fim de uma mudança efetiva.

Angélica não voltou mais à igreja, não quis a ajuda que lhe foi oferecida, mas espero no Senhor que passados tantos anos já tenha tratado o problema.

A sua história pode ser diferente. Se você tem tentado racionalizar o seu pecado e ao ler este texto se deu conta do caminho que está tomando, achegue-se confiadamente ao Leão de Judá, confesse a sua falta e rogue que o seu Espírito o ajude em sua caminhada cristã, de modo que honre o Senhor em todo momento.

Milton C. J. Junior


[1] O nome é fictício, mas a história é real

terça-feira, 11 de junho de 2019

A astúcia da idolatria

Resultado de imagem para fariseu oferta

O tema da idolatria é visto de forma abundante nas Escrituras. Quando Deus criou o homem, o fez um servo. Como servo ele deveria obedecer, temer, adorar, buscar satisfação, alegria, segurança, identidade, etc., no Senhor. Creio que isso foi bem colocado pelos teólogos de Westminster no Breve Catecismo, quando perguntaram: “Qual é o fim principal do homem?” e responderam: “O fim principal do homem é glorificar a Deus, e gozá-lo para sempre” (pergunta 1).

Ocorre que o homem foi posto à prova a fim de testar seu amor a Deus. O Senhor concedeu a ele tudo, menos provar da árvore do conhecimento do bem e do mal sob pena de morrer caso desobedecesse (Gn 2.16,17). O fim da história todos sabemos, o homem pecou e foi expulso do jardim do Éden.

Quando observamos a tentação percebemos a sutileza da serpente. Depois de questionar a bondade de Deus insinuando que ele não dava o que eles mereciam (“É assim que Deus disse: não comereis de toda árvore do jardim?” – Gn 3.1) e ouvir da mulher que Deus os tinha privado apenas da árvore do conhecimento do bem e do mal, a serpente afirmou que era certo que não morreriam. A razão da proibição, disse ela, é que Deus não queria “concorrência”, pois se provassem do fruto eles seriam como Deus, conhecedores do bem e do mal. O que estava em jogo aqui era a autonomia que teriam. Não seria mais preciso servir ao Senhor e buscar nele satisfação, alegria, segurança, identidade, etc., pois eles mesmos seriam deuses.

A idolatria se caracteriza em buscar em coisas, pessoas ou em si mesmo aquilo que só pode ser encontrado no Senhor. É idolatria, portanto, fazer nossa vontade em vez da do Senhor e buscar o nosso reino em vem do Reino de Deus, daí o Senhor ordenar aos que queriam segui-lo que negassem a si mesmos (Mt 16.24).

Muitos acham que a idolatria está restrita ao fazer imagens de escultura e prestar culto a elas, como está ordenado no segundo mandamento (Êx 20.4-6) e nisso já vemos o caráter astuto da idolatria. O pensamento é: “Se não me dobro diante de imagens, não sou um idólatra”. Porém, estes esquecem que antes disso o Senhor também ordenou: “Não terás outros deuses diante de mim” (Êx 20.3). Ou seja, a idolatria “escultural” ou “iconográfica” é somente o desdobramento da idolatria que acontece no coração.

Isso se comprova quando vemos o Senhor reprovando, por meio do profeta Ezequiel, os homens que levantavam ídolos em seu coração (Cf. Ez 14.4-11) e quando João termina sua primeira epístola exortando: “Filhinhos, guardai-vos dos ídolos” (1Jo 5.19), mesmo não tendo falado uma vez sequer em “imagens de escultura”, mas falando abundantemente sobre amar a Deus e não ao mundo e sobre cumprir os mandamentos do Senhor.

Diante disso, alguns podem pensar: “Então basta cumprirmos os mandamentos que estaremos livres da idolatria”. Eu diria talvez, e isso também por causa do caráter astuto da idolatria. Se cumprimos os mandamentos como expressão de amor e submissão a Deus, estamos agindo corretamente, mas infelizmente a idolatria pode transformar ações que seriam corretas em pecado.

Pense como muitas vezes nos enganamos! Quando conhecemos alguém que não contribui financeiramente com a igreja, entregando seus dízimos e ofertas, pensamos rapidamente que se trata de um sovina, de alguém que ama demais o dinheiro. Por outro lado, quando conhecemos um dizimista fiel e pontual em sua oferta, pensamos logo que se trata de um irmão fiel, que ama a Cristo. O problema é que ambos podem amar mesmo é o dinheiro, somente agem de forma distinta. O primeiro ama tanto que não se importa com a ordenança bíblica para as contribuições, já o segundo ama tanto que tem medo de que Deus o amaldiçoe tirando os outros 90% e essa é a única razão para a contribuição.

Pense ainda em alguém que é ultrajado e não se vinga. Esse poderia ser um exemplo de alguém que cumpre o mandamento de não se vingar (Rm 10.18), exceto pelo fato de sua motivação não ser dar lugar à ira de Deus, como ordenado no versículo 19, mas demonstrar como ele é superior ao outro, não se rebaixando ao fazer o mesmo. Nos dois casos a idolatria se caracteriza pelo amor ao dinheiro, ao ego ou à reputação, mais que a Deus.

Pensando em exemplos bíblicos poderíamos citar o desejo de Raquel por um filho. Esse desejo, que em si mesmo não seria pecaminoso, tornou-se um ídolo quando ela achou que dependia disso para ser realizada, ao dizer a Jacó: “Dá-me filhos, senão morrerei” (Gn 30.1), ou Moisés, que diante da possibilidade de ser visto como um líder negligente pelo povo, pediu a Deus: “Se é assim que me tratas, mata-me de uma vez, eu te peço, se tenho achado favor aos teus olhos; e não me deixes ver a minha miséria” (Nm 11.15), demonstrando que amava mesmo era a sua reputação, ou ainda o fariseu da parábola contada em Lucas 18.9-14, que cumpria a lei confiando em sua própria justiça diante de Deus e se achando mais digno que o publicano.

Temos de concordar com Calvino. O coração do homem é, de fato, uma fábrica de ídolos. Tendo a idolatria esse caráter astuto, devemos rogar ao Senhor que guarde nossos corações e mentes em Cristo Jesus enquanto vigiamos e, pela Palavra de Deus, sondamos nosso coração a fim de verificar se aquilo que fazemos tem mesmo por fim a glória de Deus.

Milton C. J. Junior

quinta-feira, 9 de maio de 2019

Enterre, também, seus ídolos

enterrando ídolos

“Levanta-te, sobe a Betel e habita ali; faze um altar ao Deus que te apareceu quando fugias da presença de Esaú, teu irmão” (Gn 35.1). A ordem foi dada pelo Senhor a Jacó num momento em que o seu coração estava cheio de temor. Ele estava com medo de ser destruído, juntamente com sua família, pelos cananeus e ferezeus, após seus filhos Simeão e Levi cometerem uma chacina matando todos os homens da cidade de Siquém.

Siquém havia violentado e levado cativa Diná, filha de Lia, portanto, irmã “plena” de Simeão e Levi. Jacó foi negligente não dando importância ao ocorrido e ainda consentindo com o casamento misto proposto por Hamor, pai de Siquém. Simeão e Levi entenderam corretamente a gravidade da situação, mas tomaram uma atitude errada. Pensando somente na vingança, profanaram a circuncisão, sinal da Santa Aliança. Dolosamente eles afirmaram que só permitiriam o casamento caso os homens da cidade se submetessem à circuncisão, o que eles fizeram. Porém, a trama era se aproveitar da fragilidade dos homens após esse ato e assassinar a todos, o que, de fato, fizeram.

Diante disso, Jacó repreendeu seus filhos, mas não foi pelas razões corretas. Ele não estava preocupado com o fato de os filhos terem feito uma guerra sem a chancela de Deus. Também não se preocupou com a profanação do sinal da Aliança e com o esvaziamento do seu significado numa empreitada de vingança. Não! Jacó repreendeu seus filhos porque entendeu que a atitude deles o havia tornado odioso entre os moradores daquela terra e ele corria o risco de ser destruído. Sua razão para repreender os filhos, além de egoísta, revelava falta de confiança no Deus que lhe havia feito promessas e mudado o seu nome para Israel (= “Deus prevalece”).

O temor invade o coração de Jacó quando a sua confiança deixa de ser no Deus que prevalece e passa a ser no seu “bom relacionamento” com os moradores da terra (confira no capítulo 34 de Gênesis).

Uma extraordinária lembrança

No início do capítulo 35, Deus então ordena que Jacó vá para Betel (35.1). A ordem é para que ele habitasse em Betel e ali fizesse um altar. É importante notar que, neste momento, Deus está trazendo algo à lembrança de Jacó. O altar seria feito “ao Deus que te apareceu [a Jacó] quando fugias da presença de Esaú”.

O fato de o Senhor enfatizar isso é extraordinário. Jacó estava com medo dos cananeus e ferezeus, temendo que eles o destruíssem juntamente com sua casa e Deus está lembrando que, em outra ocasião de temor, quando estava sob o risco de perecer sob a ira do seu irmão Esaú (a quem tinha enganado), o Senhor o havia guardado. É como se Deus estivesse dizendo: “Jacó, lembre-se de que eu sou o Deus que te apareceu em Betel e fiz promessas. Lembre-se de que eu já te livrei de morrer e minhas promessas permanecem de pé”.

Jacó entendeu o recado. Ele convoca sua caravana e diz: “Subamos a Betel. Farei ali um altar ao Deus que me respondeu no dia da angústia e me acompanhou no caminho por onde andei (35.3). Ele relembra, então, que Deus tem estado ao seu lado, o tem amparado e tem cumprido suas promessas e afirma que faria, em Betel, um altar a esse Deus.

Ao chegar a Betel e edificar o altar, a lembrança permanece em sua mente. Ele chama o lugar de “El-Betel; porque ali Deus se revelou quando fugia da presença de seu irmão” (35.7).

Em um momento de angústia e temor, Jacó foi lembrado a respeito da fidelidade e da segurança que tinha no Senhor.

Livrando-se dos ídolos

Essa lembrança produziu um resultado piedoso. Assim que ouviu o Senhor mencionar o momento em que tinha aparecido a Jacó pela primeira vez, ele ordenou à sua família e toda a caravana que lançassem fora os deuses estranhos.

É necessário lembrar que toda idolatria iconográfica é o resultado final da idolatria do coração. Aqueles que chegam a esculpir ou desenhar seus deuses simplesmente revelam aquilo em que o seu coração confia.

É preciso lembrar também que na saída da casa de Labão, seu sogro, Raquel havia roubado de seu pai os ídolos do lar, mas ainda que não houvesse a presença física dos ídolos, tanto ela quanto Jacó e sua irmã Lia revelaram um coração bastante idólatra, tempos atrás. Jacó tinha na beleza a sua razão de viver, tanto que, ao ser enganado por Labão e ter se casado com Lia, dispôs-se a trabalhar mais sete anos em favor daquela que “era formosa de porte e de semblante” (Gn 29.17), estabelecendo assim um casamento bígamo. Lia tinha no amor de Jacó a sua razão de viver e usava seus filhos para tentar conseguir esse amor (Gn 29.31-34; 30.20). Raquel, por sua vez, tinha na maternidade a sua razão de viver chegando a se irar com Jacó e declarar toda a sua idolatria ao afirmar: “Dá-me filhos, senão morrerei” (30.1). A idolatria era tamanha que ao conceber, de forma milagrosa, pela primeira vez, em vez de louvar a Deus disse: “quero ainda outro”, chamando-o de José.

Perceba que nenhum desses desejos é pecaminoso em si. Querer uma esposa bonita, o amor do marido ou a bênção de ter filhos eram desejos lícitos que se tornaram pecaminosos a partir do momento em que cada um desses personagens pecou para consegui-los ou pecou por não ter o que queria.

Voltando então ao ponto, convocar a família e o povo a lançar fora os deuses estranhos significava que somente no Senhor deveria estar a confiança, a alegria, a segurança e tudo mais que buscavam.

Jacó ordena ainda que eles se purifiquem e mudem de vestes, gesto que simbolizava purificação da contaminação dos ídolos para a pureza diante de Deus. Eles deveriam trilhar um novo e purificado caminho de vida (35.2).

A caravana atendeu a Jacó (35.4) e cada um entregou os deuses e as argolas que usavam nas orelhas como uma espécie de amuleto. Jacó pegou tudo aquilo, todos os amuletos e todos os deuses estranhos, e os enterrou debaixo de um carvalho, em Siquém.

Experimentando alívio

Quando eles partiram, após entenderem que o Senhor era fiel e que deviam temer a ele e não aos ídolos (no momento, as nações eram também ídolos, pois eram vistas como maiores que Deus), eles experimentam algo maravilhoso.

Eles viram aqueles que eram o motivo de seu temor, temendo o “Deus que prevalece” quando “o terror de Deus invadiu as cidades circunvizinhas” (35.5) e, consequentemente, não perseguiram os filhos de Jacó. O temeroso Jacó teve mais uma prova de que o Deus da Aliança estava cumprindo fielmente o plano de fazer dele uma nação. Não havia, então, o que temer.

Ele termina, como já foi visto, levantando um altar e adorando ao Senhor.

Enterre os seus ídolos aos pés da cruz

Quais são os temores que tomam conta do seu coração? Em que ou em quem você tem depositado a sua confiança? Quais desejos o têm levado a pecar contra o Senhor?

As razões que podem tirar o seu sossego, trazer angústia, tristeza e deixá-lo ansioso podem ser variadas, mas uma coisa é certa: sempre que você procurar conforto, segurança, alegria, satisfação fora do Senhor, estará levantando um falso deus diante de si e incorrendo, assim, em idolatria. Os falsos deuses podem até prometer alegria, mas eles não são capazes de cumprir suas promessas.

Quais são os falsos deuses que você precisar enterrar hoje, não debaixo do carvalho como fez Jacó, mas aos pés da cruz de Jesus Cristo? Faça uma análise de sua vida e verifique se você não tem buscado alegria no dinheiro, em pessoas, status, comida, bebida, prazeres dessa vida, etc. Se a fonte do seu prazer está em coisas ou pessoas em vez de estar somente em Cristo, confesse ao Senhor esse pecado.

Ao enterrar seus ídolos aos pés da cruz você, certamente, experimentará a paz de Cristo que excede todo entendimento (Fp 4.7). Você estará seguro e louvará a Deus a despeito das circunstâncias (Fp 4.10-13). Tendo o Senhor como único Deus você poderá usufruir tudo aquilo que ele nos concede sem se deixar dominar por nenhum deles (1Co 6.12), fazendo tudo para a glória dele (1Co 10.31).

Em seus momentos de dificuldade obedeça então à ordem do apóstolo Pedro e lance sobre Cristo Jesus toda a sua ansiedade, sabendo que ele cuida dos seus (1Pe 5.7). Lembre-se também das palavras do Senhor, que prometeu: “Vinde a mim, todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração; e achareis descanso para a vossa alma. Porque o meu jugo é suave, e o meu fardo é leve” (Mt 11.28-30).

Milton  C. J. Junior

quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

Quem controla você?


43e8b0957fdc621a[1]

Absalão finalmente conseguira ordem do Rei Davi, seu pai, para que voltasse a Jesusalém. Ele havia fugido após assassinar seu meio-irmão e ao retornar, poderia ficar em sua casa, mas sem ver o rei. Dois anos se passaram e Absalão foi admitido à presença de Davi. A paz entre os dois parecia ter sido selada, entretanto, Absalão começou um plano a fim de tomar o reino de seu pai. Durante quatro anos ele se colocou diariamente à frente do palácio e sempre que alguém chegava com alguma demanda para que o rei julgasse, Absalão insinuava: “Você até que tem uma boa causa, mas não será ouvido... Ah se eu é que fosse o rei, eu ajudaria todos aqueles que viessem com alguma questão, estabelecendo a justiça”. Além disso, não permitia que os homens se inclinassem perante ele, antes, estendia a mão e os beijava. O texto bíblico diz que “desta maneira fazia Absalão a todo o Israel que vinha ao rei para juízo e, assim, ele furtava o coração dos homens de Israel (2Sm 15.1-6). Quando Absalão proclamou o golpe contra o rei, o povo já estava do seu lado.

Creio que essa história é uma boa ilustração daquilo que o Senhor Jesus afirmou a seus discípulos, “onde está o teu tesouro, aí estará também o teu coração” (Mt 6.21). O que alguém tem como seu desejo mais precioso (tesouro) governará o seu coração, logo, o desejo que controlar o seu coração, controlará também a sua vida. Não é, então, sem razão, a advertência do livro de provérbios, “acima de tudo, guarde o seu coração, pois dele depende toda a sua vida (Pv 4.23 – NVI).

Sendo, então, verdade que somos controlados pelos desejos que governam o nosso coração, pode-se afirmar que aqueles que sabem o que controla o nosso coração podem também nos controlar ou manipular. Absalão sabia o que o povo desejava, o que estava em seu coração. Eles queriam ser ouvidos e ter suas causas julgadas e foi assim que se apresentou, cativando-os e levando-os a tomar parte em sua conspiração [qualquer semelhança com o populismo do nosso governo não é mera coincidência].

Infelizmente, muitas vezes controlamos e somos controlados por outras pessoas mais do que gostaríamos de admitir e o controle sempre se dará por conta daquilo que se tem como “o” tesouro do coração.

Seja no caso de um pai dizer ao filho que se ele se comportar vai ganhar aquele vídeo game que tanto queria ou de um político prometer aquilo que o povo tanto anseia a fim de angariar votos ou de uma empresa investir na valorização do cliente para que seus lucros aumentem ou ainda quando um rapaz flerte com uma moça elogiando aquilo que ele entende de que ela se agradará, o que está por trás é sempre o mesmo: ser bem sucedido em sua investida ao oferecer aquilo que o outro tanto deseja. É exatamente por isso que ao oferecer aquilo que o outro não deseja, a tendência é que cada uma dessas investidas citadas seja mal sucedida. Um filho não se comportará em troca de um brinquedo que não goste, o eleitor não votará em um político que prometa aumentar ao máximo os impostos, um cliente não procurará uma empresa que o trate como “um qualquer”, tampouco uma moça aceitaria namorar um rapaz que, de cara, dissesse que ela não vale tanto a pena, mas que seria sua única opção.

Mas essa dinâmica pode ocorrer também de forma inversa. Por exemplo, uma pessoa que tem como seu tesouro o “ser aceito pelos outros” tenderá a nunca desagradar ou contrariar ninguém, na esperança de ser acolhido; aquele que “ama a sua reputação” poderá ser tentado a mentir sobre si mesmo somente para manter o seu status; uma esposa que tem como seu tesouro mais precioso o seu marido, pode sofrer várias humilhações sem confrontá-lo, com medo de perdê-lo. A realidade é triste! Se o homem não tiver o Senhor como seu tesouro mais precioso, certamente será controlado por aquilo a que ele conferir esse status.

Não é de se admirar, então, que o mandamento mais importante, conforme respondeu o Senhor à pergunta do intérprete da Lei, seja: “amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento” (Mt 22.37). Para que isso pudesse ser uma realidade, o Senhor prometeu, por meio do profeta Ezequiel, que tiraria do povo o coração de pedra e colocaria um coração de carne para que andem nos meus estatutos, e guardem os meus juízos, e os executem; eles serão o meu povo, e eu serei o seu Deus” (Ez 11.19-20).

Aqueles que nasceram da água e do espírito e que têm esse novo coração são capacitados a viver para Deus. Entretanto, como o Senhor já nos resgatou, mas ainda não fomos plenamente transformados (1Jo 3.2), até o dia final enfrentaremos a luta que acontece diariamente da carne contra o Espírito. Graças a Deus não estamos sozinhos nessa luta e, pela graça de Deus, podemos mortificar os desejos da carne (Rm 8.13), desfrutar da liberdade que temos em Cristo ao não nos submetermos novamente a jugo de escravidão (Gl 5.1), tendo sempre em mente que, apesar de todas as coisas serem lícitas, não podemos nos deixar dominar por nenhuma delas (1Co 6.12).

Vivendo assim, os desejos do seu coração estarão no lugar correto e você não pecará para realizá-los, antes, colocará cada um deles aos pés da cruz do Redentor, esperando nele a concretização, se assim for do seu sábio querer. Você também não será manipulado por ninguém, pois sempre terá a Palavra de Deus como crivo para o que for realizar, tampouco desejará manipular a outros. Pela graça de Deus, procure viver sempre em submissão, mas somente a Cristo Jesus, nosso Redentor!

Milton C. J. Junior

terça-feira, 23 de outubro de 2018

Fique atento às suas motivações

motivação coração2[4]Deus não está mais preocupado com o que fazemos do que com a razão pela qual fazemos e é fácil perceber isso nas Escrituras. Esse foi o motivo de Jesus afirmar categoricamente acerca dos fariseus: “Esse povo honra-me com os lábios, mas o seu coração está longe de mim” (Mt 15.8). Ao mesmo tempo em que declaravam louvores ao Senhor, os fariseus negavam a Palavra e ensinavam seus próprios princípios (Mt 15.9).

Podemos verificar essa mesma verdade no julgamento de Jesus quanto às “boas ações” dos fariseus, por ocasião do sermão do monte. Ali o Senhor os chamou de hipócritas, repreendendo suas ações de dar esmolas (Mt 6.2), orar nas sinagogas e praças (Mt 6.5) e fazer jejum (Mt 6.16). Conquanto essas atitudes não fossem pecaminosas em si mesmas, acabavam se tornando pecado por causa da motivação dos fariseus para fazerem todas elas: “serem glorificados pelos homens”, “serem vistos dos homens” e “com o fim de parecer aos homens”, respectivamente.

Ao invés de buscar o reino de Deus e a glória do Redentor, os fariseus estavam preocupados com seus reinos pessoais e com a glorificação de si mesmos.

Infelizmente essa não era uma realidade exclusiva dos fariseus. Vemos todos os dias cristãos tentando evitar o pecado, também motivados por seus próprios reinos. Isso pode ser verificado em conselhos como: “Não tenha relações sexuais antes do casamento, pois se você engravidar vai estragar sua vida e terá que parar de estudar para se dedicar ao bebê”; ou, “Eduque o seu filho para que não precise passar vergonha na frente dos outros quando ele lhe desobedecer em público”; ou ainda; “Agrade o seu cônjuge para que conceda o carinho de que você precisa”.

Conselhos como esses estão totalmente comprometidos somente com o “reino do eu”, com aquilo que é bom para mim e, por isso, ainda que os jovens sejam castos, os filhos educados e os cônjuges estejam vivendo bem, Deus não está sendo honrado.

Há ainda outra questão. Quando o motivo para se evitar o pecado é algo que “eu” acho que trará uma consequência ruim para o “meu reino”, além de se ter um entendimento distorcido de em que consiste a vida cristã, bastará que “eu” mude de opinião para começar a fazer o que eu antes proibia. Tomando um dos exemplos acima, teríamos alguém evitando sexo antes do casamento para não correr o risco de uma gravidez indesejada. O ensino distorcido que fica claro é: filhos são um problema. Mas se a opinião sobre isso mudar e se entender que ter filhos é algo bom (o que é verdadeiríssimo) não haveria mais a “barreira” para o sexo pré-marital. Se o reino é meu, as regras são minhas e, por conta disso, nunca haverá honra a Deus.

Para que o Senhor seja honrado as razões para não pecar devem emanar da sua Palavra e do entendimento de que o pecado é primeiramente uma afronta à sua santidade. Assim, o relacionamento sexual antes do casamento deve ser evitado porque afronta a Deus (Hb 12.4), os filhos devem ser educados para honrar a Deus (Dt 6.1-7) e os cônjuges dever servir um ao outro porque essa é a vontade de Deus (Ef 5.21-33).

O pecado não é ruim, primariamente, por causa das consequências que traz, mas por causa de quem é primeiramente afrontado, o Santo Deus, e isso deve nortear também a nossa confissão de pecados, que pode revelar um coração arrependido ou simplesmente remorso e aqui estamos, mais uma vez, a tratar de motivações.

Para ilustrar, pense em dois exemplos conhecidos. Sabemos que Judas traiu a Jesus e às vezes nos esquecemos de que Pedro também o fez, quando o negou. A diferença entre os dois foi que Pedro entristeceu-se por ter traído o mestre (Mt 26.75) e mais à frente foi restaurado (Jo 21.15-17), enquanto Judas entristeceu-se por causa da consequência de sua traição, que foi a condenação à morte de Jesus (Mt 27.1-3), e, não conseguindo viver com o remorso, suicidou-se. Os motivos foram bem distintos.

As motivações procedem do coração (Mt 6.21), razão de lermos em Provérbios que “assim como a água reflete o rosto, o coração reflete quem somos nós” (Pv 27.19 - NVI). É o nosso coração que demonstra se vivemos para Deus ou se vivemos para nós mesmos. Diante disso, devemos fazer coro com o salmista e, perante Deus, afirmar: “Guardo no coração as tuas palavras” – com a mesma e correta motivação – “para não pecar contra ti” (Sl 119.11).

Vivendo dessa forma poderemos, como ordenou Paulo, comer, beber, ou fazer qualquer outra coisa sempre motivados por dar toda a glória a Deus (1Co 10.31).

Milton C. J. Junior

sexta-feira, 6 de julho de 2018

Desejos que podem matar

coração (3)“Cada um, porém, é tentado pelo próprio mau desejo, sendo por este arrastado e seduzido. Então esse desejo, tendo concebido, dá à luz o pecado, e o pecado, após ter se consumado, gera a morte” (Tiago 1.14,15 - NVI).

Tiago nos ensina sobre a dinâmica do pecado. Conquanto muitas vezes queiramos dar desculpas para nossas ações pecaminosas, a verdade retratada nesse texto é que pecamos por causa dos desejos do nosso coração. Atente, porém, para um detalhe. Tiago não está falando de qualquer desejo, mas daquele que ele qualifica como “mau desejo”.

Podemos pensar sobre o “mau desejo” em dois sentidos: primeiro, é mau desejo tudo aquilo que é diretamente proibido pela lei de Deus. Só para exemplificar, o desejo de adulterar é em si mau, pois é explicitamente contrário à santa Lei de Deus.

Porém, há outro sentido que devemos considerar. Bons desejos podem tornar-se maus, quando queremos que se concretizem custe o que custar. A Bíblia não proíbe que os filhos de Deus desejem coisas lícitas, mas quando começamos a ser “controlados” por elas a ponto de pecar para conseguir o que queremos ou pecar por não ter conseguido o que queremos significa que um bom desejo tornou-se um mau senhor. Não é sem razão, portanto, que o Senhor Jesus adverte que “onde está o teu tesouro, aí estará também o teu coração” (Mt 6.21).

Quando estamos com os olhos fixos somente nos desejos do coração, acabamos por ignorar as ordenanças do Senhor. Permita-me ilustrar isso.

Sempre gostei muito de mergulhar. Quando coloco máscara, canudo (snorkel) e pés de pato (nadadeiras) e me lanço ao mar, quase me esqueço da vida “aqui fora”. Quando eu era ainda um adolescente, costumava pegar, com amigos, peixinhos ornamentais para vender a um revendedor de peixes de aquário, que havia em minha cidade. Alguns peixes eram mais caros e quando encontrávamos um desses era uma grande alegria. Um dia foi a minha vez de achar um desses. Ele era lindo e logo pensei no dinheiro da venda (que hoje reconheço que não era tanto assim... rs) e no prazer de capturar um daqueles. Tomei fôlego, prendi a respiração e mergulhei atrás. Era um peixe arisco! Eu cercava por um lado com a mão, tentando levá-lo à direção da “redinha” que estava do outro lado e ele se escondia atrás de alguma pedra. A vontade de ter aquele peixinho era tanta que me esqueci de uma lei básica: sem oxigênio eu morro! Quando me vi já quase sem fôlego e olhei para cima, os poucos metros de água até a superfície pareciam quilômetros. Tive de nadar muito rápido e cheguei à superfície ofegante. O desejo pelo peixe me fez esquecer uma lei e isso poderia ter me levado à morte.

Creio que é isso que Tiago está ensinando. O mau desejo me leva a desprezar a lei de Deus e eu peco para consegui-lo ou por não tê-lo conseguido. O que se segue é a morte! O mau desejo se torna senhor, um ídolo, que determina como o homem deve agir, desprezando a Lei do verdadeiro Senhor.

Ao exortar Caim, Deus falou exatamente sobre isso: “Se procederes bem [de acordo com a Lei do Senhor], não é certo que serás aceito? Se, todavia, procederes mal [pecando por obedecer ao desejo], eis que o pecado jaz à porta; o seu desejo será contra ti, mas cumpre a ti dominá-lo (Gn 4.7 – grifo meu).

Embora as Escrituras sejam claras, constantemente deixamos que os desejos tomem conta do nosso coração e se tornem falsos deuses que fazem promessas de alegria, satisfação, paz, tranquilidade, etc. que nunca poderão cumprir. Essa é razão de pecarmos. Se amássemos absolutamente ao Senhor sobre todas as coisas, nunca pecaríamos, pois faríamos sempre a sua vontade. Isso implica que qualquer pecado que cometamos seja uma consequência de um primeiro pecado, a quebra do primeiro mandamento em que Deus nos ordena: “Não terás outros deuses diante de mim” (Êx 20.3).

Muitos servos de Deus têm tomado decisões pautadas não na Lei do Senhor, mas na simples satisfação de seus desejos e têm colhido as consequências trágicas que resultam da desobediência.

É lícito desejar um bom emprego, um bom casamento, a casa própria dos sonhos, o reconhecimento pelo bom trabalho, respeito, liderança na igreja, etc. Todas essas coisas não são más em si mesmas, mas quando estamos dispostos a pecar por elas ou ficamos irritados, irados, mal-humorados, enfim, quando pecamos não respondendo de forma piedosa quando não as conseguimos, estamos diante do “mau desejo” que Tiago afirma que conduz à morte.

O Senhor Jesus nos ensina de forma prática como devemos colocar nossos desejos diante do Pai. Em sua oração, antes de ser preso e morrer em lugar do seu povo, ele expressou seu desejo: “Aba Pai, tudo te é possível; passa de mim este cálice” – entretanto, não se rebelou e submeteu-se a vontade do Pai, que era totalmente diferente do que ele estava pedindo, quando terminou a sua oração – “contudo, não seja o que eu quero, e sim o que queres” (Mc 14.36).

A Bíblia afirma que a vontade de Deus é “boa, agradável e perfeita” (Rm 12.2) e também que “todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito” (Rm 8.28).

Se estivermos convictos dessas verdades poderemos colocar sempre os nossos desejos diante do Senhor, já abrindo mão deles, e afirmar: “faça-se a tua vontade, assim na terra como no céu” (Mt 6.10), pois saberemos que para nossa alegria e satisfação dependemos somente do Senhor e não daquilo que ele pode ou não nos conceder.

Agindo assim, honraremos sempre o Redentor.

Milton C. J. Junior