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quinta-feira, 17 de maio de 2018

O seu melhor não é o suficiente!

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Ao ler o título acima talvez você tenha pensado que ele não é muito motivador. Talvez tenha passado por sua cabeça que ele até diminui a auto estima de quem está lendo, principalmente nos dias politicamente corretos em que vivemos, onde até mesmo aqueles que não desempenham bem suas funções ou tarefas acabam sendo premiados. Nossa sociedade está criando uma geração de melindrosos que não admite reconhecer suas limitações.

Lembro que na minha infância, para se ganhar uma medalha nos esportes era preciso treinar bastante e ser o melhor. Nos dias de hoje, basta a participação. Todos ganham medalhas, do primeiro ao último colocados. Até mesmo a forma de se expressar a respeito da derrota tem mudado. Recentemente tive de explicar para minha filha que numa disputa de duas pessoas não se “ganha em segundo lugar”.

Se hoje se premia os que não são melhores, imagine então dizer que o seu melhor não é o suficiente. Entendo sua possível estranheza com o título, então, deixe-me explicar melhor a minha afirmação.

Dia desses, conversando com um amigo, ele me disse em relação à sua vida profissional: “Não entendo o que está acontecendo. Não sei o que Deus está querendo. Estou fazendo o meu melhor, mas as coisas não andam”.

Na mesma hora pensei no que está registrado no Salmo 127.1: “Se o Senhor não edificar a casa, em vão trabalham os que edificam; se o Senhor não guardar a cidade, em vão vigia a sentinela”. Creio que Salomão aponta aqui para dois aspectos. O primeiro é a tônica do livro de Eclesiastes. Penso que o Salmo resume muito bem o livro de Eclesiastes, também escrito por Salomão, que é o fato de que à parte do Senhor tudo é vão. Daí ele afirmar no segundo versículo do Salmo: “Inútil vos será levantar de madrugada, repousar tarde, comer o pão que penosamente granjeastes”. Note que o pão foi ganhado, mas na visão de Salomão, sem uma vida na presença do Senhor tudo é inútil, entretanto, “aos seus amados ele o dá [o pão] enquanto dormem”.

É o Senhor que dá sentido e significado à vida do homem que foi criado para exaltar sua majestade e glória. Daí Paulo ordenar aos Coríntios, “quer comais, quer bebais ou façais outra coisa qualquer, fazei tudo para a glória de Deus” (1Co 10.31). Nessa perspectiva, Salomão também diz no livro de Eclesiastes: “Nada há melhor para o homem do que comer, beber e fazer que a sua alma goze o bem do seu trabalho. No entanto, vi também que isto vem da mão de Deus, pois, separado deste, quem pode comer ou quem pode alegrar-se?” (Ec 2.24-25).

Mas o segundo aspecto que penso estar sendo descrito por Salomão no Salmo 127 é o que está destacado no título desta pastoral, o fato de que ainda que você faça o seu melhor, se Deus não estiver no processo, de nada adiantará. Isso aponta para a dependência de Deus.

Pense novamente nos primeiros versículos do Salmo. Salomão não está dispensando os trabalhadores que edificam a casa ou a sentinela que vigia a cidade. O ensino aqui é sobre não confiar em si mesmo ou presumir que basta somente fazer o seu trabalho bem feito que as coisas acontecerão. Se o Senhor não edificar a casa e não guardar a cidade, não adianta o trabalho bem feito dos edificadores ou da sentinela. É o Senhor quem edifica a casa e guarda a cidade e ele faz isso por meio do trabalho dos edificadores e da sentinela.

De novo, isso aponta para a dependência que se deve ter de Deus e implica fazer muito bem o seu trabalho, sem nunca se enganar, sabendo que “toda boa dádiva e todo dom perfeito são lá do alto, descendo do Pai das luzes, em que não pode existir variação ou sombra de mudança” (Tg 1.17).

Aqueles que se esquecem desta verdade e atribuem seus feitos e conquistas à sua própria capacidade, roubam a glória de Deus e se entenderão com ele. Um bom exemplo disso está em Isaías 10, onde temos a profecia do Senhor contra a Assíria. Deus iria enviar a Assíria contra Israel. Ela seria o cetro da ira de Deus e a vara em sua mão o instrumento do furor do Senhor a fim de castigar os pecados do seu povo. Entretanto, na cabeça do rei da Assíria ele estaria fazendo isso por conta de seu grande poder e força.

Deus, então, decreta: “por isso, acontecerá que, havendo o Senhor acabado sua obra no monte Sião e em Jerusalém, então, castigará a arrogância do coração do rei da Assíria e a desmedida altivez dos seus olhos; porquanto o rei disse: Com o poder da minha mão, fiz isto, e com a minha sabedoria, porque sou inteligente; [...] Porventura, gloriar-se-á o machado contra o que corta com ele? Ou presumirá a serra contra o que a maneja? Seria isso como se a vara brandisse os que a levantam ou o bastão levantasse a quem não é pau” (Is 10.12,13,15).

Diante de tudo isso, tenha em mente que você deve sempre fazer o seu melhor, com os dons e talentos que tem, para a glória do Deus que concedeu tal capacidade. Depois disso, não coloque a confiança do seu coração no que fez, mas no Senhor que leva a cabo tudo o que ele quer fazer, na hora que ele quer fazer. Isso te fará descansar em seu sábio e soberano governo. Por fim, não esqueça de tributar ao Senhor a glória devida, quando ele abençoar o trabalho de suas mãos.

O seu melhor não é o suficiente! Ele deve vir acompanhado de um profundo senso de dependência, submissão, gratidão e louvor ao Deus que faz todas as coisas por meio de Jesus Cristo (o melhor de Deus para nós), segundo sua própria vontade, usando instrumentos frágeis como eu e você, para a glória e louvor dele mesmo.

Milton C. J. Junior

quinta-feira, 3 de maio de 2018

Deus cuida de nós enquanto cuidamos de outros – ou – Lições aprendidas ao aconselhar minha filha

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Filhos são herança do Senhor. Deus nos concede a bênção de ter filhos e, juntamente com isso, o privilégio e responsabilidade de instruí-los no caminho da justiça. De acordo com o texto de Deuteronômio esta instrução não deve acontecer somente em momentos específicos e/ou pontuais, mas as palavras ordenadas por Deus devem estar no coração dos pais para que “inculquem” e falem delas aos filhos “assentado em tua casa, e andando pelo caminho, e ao deitar-te, e ao levantar-te” (6.7), ou seja, em todo o tempo.

Pais devem estar atentos a todas as oportunidades concedidas pelo Senhor para pastorear e ministrar ao coração dos filhos e hoje tive um desses momentos. Tenho dois lindos filhos, herança preciosa do Senhor, mas, como puxaram os pais, pecadores. Triste sorte, não fosse a esperança que há no evangelho do Redentor Jesus Cristo. Pela manhã um episódio simples serviu para eu ver como o Senhor Deus opera graciosamente em seus filhos.

Eu tinha pegado em uma lanchonete fast-food alguns gorros dos Smurfs de papelão, para montar, e Fernanda, minha filha mais velha, montou para ela e para Filipe, meu mais novo. Ele reclamou que o dele tinha rasgado e eu fui ver. Constatamos (eu e Fernanda) que não havia rasgado e que somente havia desencaixado uma parte da outra. Eu, entretanto, verifiquei também que Fernanda tinha encaixado da forma errada e disse isso a ela que prontamente respondeu: “Está certo, eu li as instruções”. “-Minha filha, está errado”. “-Não está não!”, falou ela já em tom choroso.

Como recentemente havia acontecido outros episódios em que ela não se deixava instruir, demonstrando todo o seu orgulho, eu lhe disse: “-Tá bom sabichona, você está certa”. Isso a deixou inquieta: “-Não sou sabichona”. “-É claro que é minha filha, você sabe mais que seu pai”, dizia eu enquanto ela me ignorava. Esta última atitude me fez falar de forma mais dura com ela que ouviu um pouco mais sobre o quanto estava sendo orgulhosa, sobre o não querer aprender e me viu ir para o quarto ajudar Filipe com outra coisa.

Não passou muito tempo, vem ela, chorosa, pedindo perdão. Perguntei a respeito da razão para o pedido e ela disse que era por ter me ignorado e ter sido orgulhosa. Como conselheiro bíblico que sou, vi então a oportunidade de ministrar ao coração da minha primogênita, afinal, conheço bem Deuteronômio 6! Falei que ela ainda estava em fase de aprendizado e que, por mais que já soubesse algumas coisas, ainda não sabia mais que o seu pai. Disse que o orgulho leva as pessoas a não aprenderem, pois se já entendem que sabem tudo, nunca irão querer aprender com outros. Disse ainda que Deus não se agrada de soberbos (Tg 4.6) e que o Senhor Jesus, a pessoa mais sábia que existe, era humilde, então, precisamos olhar para ele e buscar nele o desejo de ser semelhante ele é e que somente nele temos a ajuda para tudo isso.

Instruí que ela orasse pedindo perdão também a Deus por seu orgulho e para que ele a concedesse coração mais humilde, o que ela fez prontamente. Meu trabalho como pai e como conselheiro estava feito!

O que eu não esperava

Após a oração, Fernanda começou a chorar novamente. Pensei “com meus botões” que havia mais a ser tratado com ela e perguntei a razão do choro. Ela respondeu: “-O sr. debochou de mim, falou que não ia mais me chamar de sabichona e debochou de mim de novo”. Pensei, então, na minha falta!

Ela estava coberta de razão. Dias antes, por conta de seus episódios de orgulho em que achava saber mais do que eu, teimando a respeito das coisas mais bobas (por exemplo, sobre quem teria sido o descobridor do Brasil, ela insistia em D. Pedro I, confundindo as histórias) eu, que sou bastante cínico (um pecado contra o qual tenho de lutar e vigiar constantemente) comecei a chama-la de sabichona, com um tom de voz que ela entendeu acertadamente não se tratar exatamente de um elogio. Ela se ofendeu, disse que era pecado o que eu estava fazendo e que eu havia dito a ela que não faria mais isso, o que não cumpri no episódio que estou narrando aqui.

Agora pense comigo. O que seria o meu cinismo senão, também, uma demonstração de orgulho? Diante de uma criança que não se dobra à minha sabedoria, o deboche não seria uma tentativa de impor, pelo constrangimento, o que eu estava ensinando? Aqui ficou constado que ela tem o meu DNA, e ambos temos o dos nossos primeiros pais que, orgulhosos, deixaram de lado a instrução de Deus seguindo o caminho proposto pela serpente na ânsia de serem como o Senhor.

Confesso que na hora pensei em não admitir meu erro. Mesmo trabalhando com aconselhamento a tanto tempo sei que é bem fácil esquecer a primeira parte de Gálatas 6.1: “Irmãos, se alguém for surpreendido nalguma fata, vós, que sois espirituais, corrigi-o com espírito de brandura”. Ainda que eu estivesse falando com “brandura”, minha atitude foi parecida com a de um instrutor “calejado” ensinando a um aluno que ainda não sabia como agir. Pior ainda, isso revelou que não atentei para a segunda parte do versículo: “e guarda-te para que não sejas também tentado”. Minha filha confrontou em mim o mesmo pecado que eu estava percebendo nela e, pela graça de Deus, ouvi o que ela disse, afirmei que ela estava correta no que estava me cobrando, pedi perdão a ela e orei, junto com ela, pedindo perdão ao Senhor.

Conselheiros não devem olhar para os seus aconselhados como se fossem pessoas que já chegaram à perfeição e que agora podem ajudar aqueles que ainda não chegaram lá. É preciso lembrar que nossa realidade é a mesma do apóstolo Paulo que dizia: “Não que eu o tenha já recebido ou tenha já obtido a perfeição; mas prossigo para conquistar aquilo para o que também fui conquistado por Cristo Jesus” (Fp 3.12). Como diz o título do excelente livro de Paul Tripp, somos apenas “Instrumentos nas mãos do Redentor – pessoas que precisam ser transformadas ajudando pessoas que precisam de transformação”.

Com esta experiência pude trazer à memória que ambos, eu e minha filha, precisamos a cada dia de um Redentor amoroso que não se cansa de formar em nós o seu próprio caráter (Gl 4.19), pois para isso o Pai nos escolheu, para sermos conformes a imagem de seu Filho (Rm 8.29). Em um momento que para mim seria apenas de instrução para minha filha acabamos, eu e ela, experimentando o amor gracioso do Salvador e Redentor de nossas vidas, que é o único que é perfeito e que, por isso, pode aperfeiçoar aqueles que estão a seus pés, Jesus Cristo, o Senhor!

Milton C. J. Junior