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segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

Cães de família?

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Cachorros não são da família! Sei que começar o texto com uma afirmação tão categórica assim pode fazer com que alguns não queiram nem perder tempo com “este insensível que não gosta de animais”. Quase consigo ouvir alguns recitarem bem alto: “O justo atenta para a vida dos seus animais, mas o coração dos perversos é cruel” (Pv 12.10), entretanto, peço que não seja tão apressado em seu julgamento, mas que “caminhe” comigo um pouco mais.

Antes de continuar preciso insistir, cachorros não são da família. Nem gatos, papagaios, iguanas, ou qualquer outro animal que seja. Dito isso, pense um pouco comigo a respeito desse assunto e, claro, como cristãos, por uma perspectiva bíblica.

Gênesis é o livro que narra a criação. Você pode perceber nos dias criativos como o Senhor vai estabelecendo a sua obra. Ele cria céus e terra, ordena que haja luz, que haja firmamento no meio das águas, ordena que as águas debaixo do céu se ajuntem num só lugar e apareça a porção seca, ordena que a terra produza relva, ervas, árvores frutíferas, etc. e que haja luzeiros para governar o dia e a noite. Após criar todas essas coisas e um ambiente que pudesse ser habitado, o Senhor começa a criar os animais. Ele ordena que se povoem as águas de seres viventes, que voem as aves sobre a terra, cria os animais marinhos, além de todos os seres viventes cada qual segundo a sua espécie. Tudo isso segundo o poder de sua Palavra, ele ordenou e assim se fez (Cf. Gn 1.1-25).

Somente após isso o Senhor criou o homem e foi uma criação diferenciada. Não foi como a dos animais, pois o homem não é daquela espécie. O Senhor não criou animais irracionais e um animal racional, Deus criou animais e o homem, segundo sua própria imagem e conforme sua própria semelhança. Em Gênesis 1.26-28, temos a deliberação, criação e bênção sobre o homem a fim de fazer aquilo para o qual foi criado: multiplicar-se, encher a terra, sujeitar a terra, dominar sobre os peixes do mar, as aves dos céus e sobre todo animal que rasteja pela terra. Tudo isso para que a terra fosse povoada com aqueles que são a imagem do Senhor e para que, cuidando da criação, o homem pudesse espelhar aspectos do caráter do Criador.

Se eu parasse aqui já daria para perceber a diferença gritante entre um homem e um animal. Diferença qualitativa que é enfatizada por Jesus quando, ao ensinar a seus discípulos, ordenou que eles olhassem as aves do céu que, a despeito de não semear e colher, eram alvo do providencial cuidado do Pai que as sustentava e perguntou: “Porventura, não valeis vós muito mais do que as aves?” (Mt 6.26).

Sim, os homens são diferentes e qualitativamente superiores aos animais o que pode ser notado ainda em Gênesis. Caminhemos mais um pouco. No segundo capítulo percebemos que o homem foi formado primeiro. Deus o fez do pó da terra e soprou em suas narinas o fôlego de vida. Colocou-o no jardim para cultivá-lo e guardá-lo, dando uma ordem expressa para que não tomasse do fruto do conhecimento do bem e do mal (Gn 2.4-17).

É interessante notar que o Senhor afirma que não era bom para o homem estar só. Perceba bem, a despeito de Adão estar cercado de todas as espécies de animais, aos quais ele mesmo deu nome, “para o homem, todavia, não se achava uma auxiliadora que lhe fosse idônea” (Gn 2.18-20). Ele tinha consigo muitos animais, mas não tinha uma família. Deus não lhe deu animais por família, mas esta se formaria a partir do momento em que o Senhor, da costela (mesma espécie) de Adão, lhe trouxesse uma mulher que, segundo as próprias palavras de nosso primeiro pai era, afinal, “osso dos meus ossos e carne da minha carne” (Gn 2.23).

Foi somente após a queda que essa relação começou a se confundir. Se, antes da queda, ao contemplar a criação o homem tributava louvor a Deus, após, os homens, “dizendo-se sábios, tornaram-se loucos e trocaram a glória do Deus imortal por imagens feitas segundo a semelhança do homem mortal, bem como de pássaros, quadrúpedes e répteis” (Rm 1.22,23) e “mudaram a verdade de Deus em mentira, adorando e servindo a criatura em lugar do Criador, o qual é bendito eternamente. Amém!” (Rm 1.25).

O reflexo da queda pode ser visto, por exemplo, na idolatria pagã que exalta Gaia, a “mãe-terra” ou que atribui a felicidade e o equilíbrio do homem à “mãe-natureza”. Como consequência, temos a humanização dos animais que, quando não são colocados acima do homem em grau de importância, no mínimo, são vistos como iguais e o resultado não poderia ser outro, festas de aniversário em cerimoniais, SPA, hotéis, creches, carrinhos de bebê, etc., tudo para que os bichinhos “se sintam da família”. Muitos são mais bem cuidados que os próprios filhos, quando não são uma opção em detrimento desses a ponto de, já na década de 80, Eduardo Dusek ironizar cantando “troque o seu cachorro por uma criança pobre”.

Por causa desse tipo de mentalidade não é difícil ver pessoas que preferem animais a gente, todavia, a verdade é que, biblicamente, o mais cruel dos assassinos possui infinitamente mais dignidade que o mais “fofinho” dos pets, por ser imagem, ainda que desfigurada, do Criador. Imagem esta que pode ser redimida por Cristo Jesus, que para salvar pecadores se fez um homem.

Jesus morreu para salvar homens e, todos aqueles que o recebem pela fé, são feitos família de Deus (Ef 2.19). Se até aqui você ainda não se convenceu de que elevar animais ao status de membros da família está errado, olhe para a família de Deus, modelo para as nossas famílias. Ela é composta de todos os tipos de pecadores regenerados, judeus, gregos, circuncisos, incircuncisos, bárbaros, citas, escravos, livres (Cl 3.11), mas não de animais. Homens, por quem Jesus deu seu sangue, ressuscitarão para estar com ele para todo o sempre e, por mais que a criação também gema aguardando a redenção dos filhos de Deus (Rm 8.19-22), pois também será restaurada, não haverá uma ressurreição dos animais.

Eu estou ciente de que muitos que dizem considerar os animais como sendo da família querem enfatizar o cuidado que deve ser dispensado a eles e se você caminhou comigo até aqui, espero que tenha compreendido que não ter cuidado ou maltratar os animais não é atitude de um cristão. O privilégio de dominar a terra exige o cuidado com a criação. Por outro lado, elevar os animais ao nível dos homens, feitos à imagem e semelhança de Deus, é igualar-se aos pagãos.

Que o Senhor conceda a você o discernimento necessário a fim de glorificar a Deus entendendo corretamente o que significa o justo atentar para a vida de seus animais.

Milton C. J. Junior

quinta-feira, 22 de março de 2018

Homens como árvores? - A importância da antropologia no aconselhamento

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Se você está familiarizado com as Escrituras certamente sabe que o título é uma alusão à resposta do cego que foi curado por Jesus em duas etapas, após este lhe perguntar: “Vês alguma coisa?”. A resposta completa foi: “Vejo os homens, porque como árvores os vejo, andando” (Mc 8.24,24).

Talvez você saiba que esta passagem não trata de antropologia, o que é também do meu conhecimento, portanto, não desista ainda da leitura achando que é perda de tempo ler um texto que já começa citando uma passagem “fora do contexto”, mas tenha paciência e continue comigo.

O capítulo 8 do evangelho de Marcos começa com o relato da multiplicação de pães e peixes. Jesus, compadecido de uma multidão que permanecia com ele já há três dias, realizou um milagre multiplicando sete pães e alguns peixinhos e, após a multidão comer de se fartar, ainda sobraram sete cestos de pedaços de pães (Mc 8.1-10).

Depois desse milagre maravilhoso, os fariseus tentam ao Senhor Jesus e pedem um sinal dos céus. Este responde que nenhum sinal lhes seria dado e a passagem paralela, no evangelho de Mateus, informa que, “senão o de Jonas” (Mc 8.11,12; cf Mt 16.4). Jesus estava se referindo à sua morte e ressurreição, que ocorreria mais à frente, perto do fim do seu ministério terreno.

Esse contexto é importante, pois ao passar para o outro lado do mar da Galileia, Jesus advertiu os discípulos que tivessem cuidado com o fermento dos fariseus e saduceus. Diante dessa palavra de Jesus os discípulos começaram a discutir entre si, dizendo: “É que não temos pão” (Mc 8.16). Jesus interrompe e pergunta àqueles que estavam com ele e testemunharam o milagre a razão de estar discutindo sobre o não ter pão. Eles não compreendiam? Ele ainda não tinha entendido quem estava com eles? O Senhor, então, pergunta sobre as duas ocasiões em que ele havia feito o mesmo tipo de milagre. Quantos cestos de pedaços eles haviam recolhido quando Jesus partiu 5 pães para cinco mil? “Responderam eles: Doze!” (Mc 8.19). Quantos cestos eles haviam recolhido quando ele partiu 7 pães para quatro mil? “Responderam: Sete!” (Mc 8.20).

Diante da resposta Jesus perguntou: “Não compreendeis ainda?” (Mc 8.32). Ele já os havia repreendido, também, nos versículos anteriores: “Por que discorreis sobre o não terdes pão? Ainda não considerastes, nem compreendestes? Tendes o coração endurecido? Tendo olhos, não vedes? E, tendo ouvidos, não ouvis?” (Mc 8.17-18). Aqueles homens, apesar de terem visto os milagres, ainda não tinham uma visão correta acerva de quem era Jesus.

É nesse contexto que acontece a cura em duas etapas (Mc 8.22-26). Chegando em Betsaida, um cego é levado até Jesus. Ele o leva para fora da aldeia, aplica saliva em seus olhos, impõe as mãos sobre ele e pergunta se ele estava enxergando. Ele via vultos. Ele via o que parecia ser árvores, mas como estavam andando, ele deduziu que se tratavam de homens. É nesse ponto que Jesus novamente coloca as mãos nos olhos daquele homem “e ele, passando a ver claramente, ficou restabelecido; e tudo distinguia de modo perfeito”.

A história que se segue (Mc 8.27-30) nos mostra a razão de Jesus ter curado aquele homem em duas etapas. Certamente não faltou poder a Jesus, mas uma lição precisava ser aprendida.

Indo para Cesaréia, Jesus perguntou aos discípulos o que os homens diziam a respeito dele. “João Batista; outros Elias; mas outros: Algum dos profetas”, responderam eles. Diante da resposta, Jesus pergunta diretamente aos discípulos: “Mas vós, quem dizeis que eu sou?” – e Pedro, tomando à frente, responde – “Tu és o Cristo”.

A lição é clara. Os homens podiam ter até uma certa noção a respeito de quem era Jesus. Ele, de fato, era um profeta. Mas essa visão acerca do Mestre era tão turva quando à do cego, antes de ser curado completamente. Já Pedro respondeu corretamente. Estava ali o Messias, aquele que havia sido profetizado no Antigo Testamento. Como é que um homem que a pouco foi acusado, junto com os demais discípulos, de não compreender e ter o coração endurecido agora “tudo distinguia de modo perfeito?”. A resposta está na passagem paralela, no evangelho de Mateus. Após a resposta de Pedro Jesus afirmou: “Bem-aventurado és, Simão Barjonas, porque não foi carne e sangue que to revelaram, mas meu Pai, que está nos céus” (Mt 16.17). Somente Deus pode tirar os homens de sua cegueira e fazê-los entender corretamente quem é o Salvador, o Senhor Jesus Cristo.

O entendimento correto a respeito de Jesus é essencial à salvação. Ele mesmo afirmou em sua oração sacerdotal: “E a vida eterna é esta: que te conheçam a ti, o único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste” (Jo 17.3).

Homens ou árvores?

Entretanto, não é preciso conhecer somente a respeito de Cristo corretamente. É preciso que o homem tenha também uma noção correta acerca de si mesmo, como um pecador que carece da graça e da misericórdia de Deus. Como afirmei desde o princípio, o propósito da passagem da cura do cego não é ensinar antropologia, mas mostrar que só é possível “ver” a Cristo corretamente por uma obra do próprio Deus, no caso, o Espírito Santo. Entretanto, da mesma forma que só foi possível ao cego enxergar os homens, fisicamente, por causa de Cristo, só é possível chegar a uma visão antropológica correta a partir da Palavra de Cristo, que nos revela o Pai.

Calvino ensina que “é notório que o homem jamais chega ao puro conhecimento de si mesmo até que haja antes contemplado a face de Deus, e da visão dele desça a examinar-se a si próprio”[1]. Enquanto não se vê pecador e carente de Deus o homem não buscará a Cristo, mas para que ele chegue à essa conclusão, é preciso que ele entenda primeiro o quão santo é o Senhor.

Aqueles que creem em Cristo são feitos filhos de Deus e agora fazem parte da família da fé. Agora começa uma nova caminhada, uma caminhada de santificação que tem por fim tornar cada cristão semelhante a Jesus Cristo, pois esta é a razão da nossa eleição, conforme Paulo (Rm 8.29; 1Jo 3.2; Cl 3.10). Conforme a Bíblia, o instrumento que Deus usará para forjar em seus filhos o caráter do seu Filho Unigênito, nosso irmão mais velho, é a Palavra. Ela é viva e eficaz, poderosa para discernir os pensamentos do coração (Hb 4.12). Ela é perfeita e restaura a alma (Sl 19.7). Ela é inspirada por Deus e útil para tornar o homem perfeito e perfeitamente habilitado para toda a boa obra (2Tm 3.16,17). Ela nos revela a Cristo, em quem temos todas as coisas suficientes para a vida e para a piedade (2Pe 1.3).

A despeito disso, muitos cristãos têm deixado de lado a Palavra e se voltado para as ciências sociais a fim de resolver os seus problemas, conflitos, traumas, etc. Talvez você questione: Qual seria o problema disso já que os teóricos tanto estudaram o homem e podem ter boas percepções a respeito dele? Dentre tantas questões, vou me deter à questão da antropologia.

Primeiro é preciso deixar claro que eu entendo que muitos desses homens, que se dedicaram e se dedicam a compreender o homem e seus problemas, têm boas intenções. Eles sabem que há algo errado, buscam descobrir as causas e tentam propor soluções. Agora deixe-me pegar emprestada a figura do cego curado em duas etapas para ilustrar o meu ponto: A despeito da boa vontade, os teóricos das ciências sociais enxergam o homem de forma errada.

O cego via homens como árvores, os teóricos das ciências sociais os enxergam como produto da evolução, como essencialmente bom, como carente de necessidades, etc. Por mais que a observação lhes dê certa noção de que algo está errado, eles nunca compreenderão a razão fundamental dos dilemas humanos. Eles desconsideram completamente a verdade de que o homem foi criado perfeito, à imagem e semelhança de Deus e para viver para a sua glória. Entender que o homem foi criado com um propósito específico e não que ele é simples fruto do acaso, num processo de evolução aleatório, vai fazer uma diferença grandiosa no aconselhamento. O aconselhamento é primariamente para a glória de Deus, levando o homem a estar contente em toda e qualquer situação, à medida em que se submete à Palavra de Deus. Ele não tem por fim principal “solucionar” os problemas do homem.

Por desconsiderarem a Deus e a criação com um propósito específico, os teóricos humanistas também não entendem que houve uma queda, quando Adão caiu em transgressão levando a ele e toda a sua posteridade a estar afastada de Deus (Rm 3.23). Eles não enxergam o homem como um pecador. O resultado disso é que

“um estudo superficial da história da psicologia e de suas patologias propostas revela uma tentativa constante de amenizar a culpa, responsabilizando o meio ambiente, a hereditariedade ou os instintos primitivos evolucionários pelas respostas verbais ou comportamentais”[2],

ou seja, o problema sempre está “lá fora”.

À vista disso, concordo integralmente com o que escreveu Jay Adams:

“Tudo que se pode dizer de Freud é que suas ideias encorajaram pessoas irresponsáveis a persistirem em sua irresponsabilidade e a aumentá-la. Ele deu sua aprovação à conduta irresponsável e a fez respeitável. [...] Freud não fez com que as pessoas se tornassem irresponsáveis; mas forneceu uma fundamentação racional, filosófica e pseudo-científica para as pessoas usarem a fim de justificar-se”[3].

Sem uma antropologia correta, que leve em conta a criação, a queda e a redenção, é impossível tratar efetivamente os problemas da alma. Mais uma vez, recorro à John Babler, que diz:

“O verdadeiro cuidado das almas se importa com o problema fundamental da alma humana, e por isso, a doença do pecado deve ser abordada antes de qualquer outro problema. Munir um aconselhado com mecanismos de adaptação que se limitam a prover alívio temporário pode deixar a sua alma em uma condição devastadora. [...]

O evangelho de Cristo deve ser a prioridade máxima na vida do aconselhado, porque qualquer tentativa de solução que desconsidere o evangelho redentor desculpará o problema, ensinará a justiça própria e apaziguará a culpa, o que endurecerá ainda mais o coração, obscurecendo a compreensão”[4].

Desconsiderar a Deus e o pecado humano, vão levar inevitavelmente a propostas equivocadas de como “consertar” o que está errado. É claro que muito pode ser dito a respeito da antropologia bíblica, mas meu ponto aqui é apontar para a importância de um entendimento correto a respeito do homem a fim de tentar ajuda-lo em seus dilemas. Esse conhecimento só se dá pela Palavra de Deus.

“Adquirir uma perspectiva bíblica equipa o conselheiro para a tarefa de corrigir o que foi arruinado pela busca pecaminosa de uma sabedoria inadequada. O conselheiro deve trabalhar diligentemente na exegese e na compreensão das Escrituras. À medida que as Escrituras revelam o caráter de Cristo, homens e mulheres podem conhecer a Deus. Uma pessoa nunca mais será a mesma depois de ter conhecido a Deus”[5].

Tratar da alma humana sem essa séria consideração é como tentar chegar ao Rio Grande do Sul enquanto dirige pela Br-101 no sentido de Recife. Nem com toda a boa vontade do mundo você acertará. Portanto, não paute o seu aconselhamento pela visão daqueles que enxergam homens como árvores, mas, com a iluminação do Espírito Cristo, aconselhe com as lentes corretivas da suficiente Palavra de Deus.

Milton C. J. Jr.


[1] João Calvino. Institutas, Livro I – p. 42 (Ed. Clássica)

[2] John Babler (editor). Os fundamentos do aconselhamento bíblico – p. 102

[3] Jay Adams. Conselheiro capaz – p. 34

[4] John Babler (editor). Os fundamentos do aconselhamento bíblico – p. 92

[5] John Babler (editor). Os fundamentos do aconselhamento bíblico – p. 98

segunda-feira, 12 de março de 2018

A suficiência da Escritura para a vida e piedade

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Os cristãos, geralmente, não têm problema em afirmar a suficiência da Bíblia para a salvação. Porém, no que diz respeito às emoções, pensamentos, atitudes e comportamento, não são poucos os que negam a suficiência da Palavra. Prova disso é que a literatura de autoajuda é abundantemente consumida, inclusive entre crentes.

Isso é um claro contrassenso. Se a Escritura é suficiente para “nos tornar sábios para a salvação em Cristo Jesus” (2Tm 3.15) ela tem de ser também suficiente para tratar das nossas emoções e atitudes.

Conceitos e explicações seculares têm tomado cada dia mais espaço dentro da igreja e teorias têm ganhado o “status” de verdades absolutas. Tem sido ensinado de muitos púlpitos, por exemplo, que a maioria dos problemas dos crentes é causada pela falta de amor-próprio, o que é uma ideia totalmente antibíblica. A Escritura nunca ensinou que devemos nos amar, mas, sim, que devemos amar o próximo como já nos amamos (Mt 22.39; Ef 5.29).

Mais ainda, ansiedade virou doença, orgulho, egoísmo e soberba receberam o pomposo nome de “transtorno de personalidade narcisista”, e a cada ano surgem novas síndromes e transtornos que tentam “patologizar” o que a Bíblia chama de pecado. Terapeutas têm tentado ajudar seus pacientes a “viver melhor” ao fazê-los crer que eles não são culpados pelos seus atos, antes, a culpa está na forma como foram criados ou no meio em que vivem.

Cada vez menos os crentes recorrem às Escrituras e aos gabinetes pastorais para aconselhamento bíblico a fim de entender seus sentimentos e comportamento, pois, em seu entendimento, isso não é trabalho pastoral, requer ajuda de um profissional qualificado. David Powlison mostra em um artigo que não é à toa que a igreja tenha sido criticada por dois psicólogos seculares, O. Hobart Mower e Karl Manninger. “Mower perguntou: ‘Será que a religião evangélica vendeu seu direito de primogenitura pela panela de cozido da psicologia?’ Menninger escreveu um livro cujo título soa provocador: Whatever Hapenned of Sin? (O que aconteceu com o pecado?)”[1].

Um caminho melhor

Na contramão de tudo isso, o apóstolo Pedro afirma categoricamente que pelo divino poder de Deus “nos têm sido doadas todas as coisas que conduzem à vida e à piedade, pelo conhecimento completo daquele que nos chamou para a sua própria glória e virtude” (2Pe 1.3). Para Pedro, se o homem conhece ao Senhor, ele tem tudo aquilo de que necessita para a vida e piedade. Observe bem, Pedro não diz algumas coisas, mas tudo o que é necessário.

A igreja deve urgentemente voltar os olhos para a Palavra de Deus, que é a maneira que temos de guardar puro o nosso caminho (Sl 119.9). Precisamos crer no que Paulo escreveu à Timóteo, que a Palavra de Deus “é útil para o ensino, para a repreensão, para a correção e educação na justiça a fim de que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra” (2Tm 3.16,17). Uma possível tradução para a palavra perfeito é “completo”, ou seja, a Palavra é útil para que o homem seja completo.

O escritor da epístola aos Hebreus demonstra a eficácia da Palavra de Deus ao ensinar: “Porque a Palavra de Deus é viva, e eficaz, e mais cortante do que qualquer espada de dois gumes, e penetra até ao ponto de dividir alma e espírito, juntas e medulas, e é apta para discernir os pensamentos e propósitos do coração (Hb 4.12). Perceba que o escritor afirma que a Palavra sonda o mais profundo do nosso ser e revela as intenções do nosso coração.

A Bíblia ensina que o coração é o centro de controle do homem. É em virtude disso que o livro de Provérbios ensina que devemos guardar, sobretudo, o coração, porque dele procedem as fontes da vida (Pv 4.23). É por isso também que o Senhor Jesus, confrontando os fariseus, afirmou que a boca fala do que está cheio o coração (Mt 12.34) e ensinando os discípulos disse que do coração é que procedem os maus desígnios (Mt15.19).

O rei Davi, no Salmo 139, faz um pedido que deve nos servir de exemplo: “Sonda-me, ó Deus, e conhece o meu coração, prova-me e conhece os meus pensamentos; vê se há em mim algum caminho mau e guia-me pelo caminho eterno” (Sl 139.24). Ele faz o pedido certo para a pessoa certa. Só Deus pode esquadrinhar o coração (Jr 17.10); e, como vimos, ele o faz por meio da Palavra (Hb 4.12).

Sendo o coração o que controla o homem e sabendo que é a Palavra de Deus que penetra o coração, devemos recorrer a ela, encher o coração dela, ser santificados por meio dela (Jo 17.17). Ela é suficiente para nossa vida e piedade.

Usando a Bíblia corretamente

Quando falamos da suficiência das Escrituras para a vida e piedade é necessário deixar claro que isso implica uma fiel exposição da Palavra.

Ao recorrer à Bíblia para buscar orientação não devemos procurar simplesmente versículos isolados que validem ou invalidem uma determinada prática, mas estudar com seriedade, buscando um entendimento correto do texto dentro de seus contextos. Fazendo assim, teremos mandamentos e princípios que orientarão com precisão a nossa vida.

A falta de um entendimento correto da Palavra de Deus tem levado muitos a duvidar de que ela é capaz de orientar o homem quanto às suas emoções e comportamento, porém, como afirma Mark Dever: “A Palavra de Deus sempre foi o instrumento que Ele escolheu para criar, convencer, converter e conformar o seu povo. desde o primeiro anúncio do evangelho em Gênesis 3.15 até à promessa inicial feita à Abraão, em Gênesis 12.13, bem como até à regulação dessa promessa, por meio de sua Palavra, nos Dez Mandamentos (Êxodo 20), Deus outorgou vida, saúde e santidade ao seu povo por intermédio de sua Palavra.[2]

Isso torna indispensável ao crente o debruçar-se sobre a Palavra e a busca da iluminação do Espírito a fim de ter um conhecimento correto da Escritura e aplicá-la em todas as áreas da vida.

Conscientes de que vivemos numa sociedade que busca explicar o comportamento humano usando princípios antibíblicos, tenhamos, de fato, a Bíblia como nossa regra de fé e prática e que ao invés de recorrer à sabedoria deste mundo, busquemos o conhecimento da Palavra de Deus enchendo o coração dela.

Certamente o Senhor se agradará de nós e derramará suas bênçãos.

Milton C. J. Junior


[1] David Powlison. Integração ou inundação? In: Religião de Poder. São Paulo: Cultura Cristã, 1998, pp. 166,167

[2] Mark Dever & Paul Alexander. Deliberadamente Igreja. São Paulo: Fiel, 2005, pp. 41,42